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Crônica

Cinco ideias que deram em nada

por Alberto Villas publicado 25/09/2014 12h24
Algumas ideias na vida da gente dão certo, outras não
Arquivo pessoal
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O autor, cabeludo, esperando a ditadura cair

Quando acabei de ler o delicioso livro Cem Ideias que Deram em Nada, da Antonia Pellegrino, pensei cá com os meus botões: Que ideias já tive um dia e que deram em nada? De cara, enumerei cinco.

Ideia 1: Deixar o cabelo crescer

A ideia surgiu no dia em que coloquei os pés em Paris pela primeira vez. Vivíamos os primeiros dias de 1974 e uma ditadura ferrenha no Brasil. Ali, enfrentando aquele vento e aquele frio na Gare d’Austerlitz, decidi que só cortaria o cabelo no dia em que o regime militar caísse. Levei a coisa a sério. O meu cabelo foi crescendo e crescendo e virou uma verdadeira juba de leão. Me orgulhava dele, mesmo com aquelas duas pontas em cada fio. Um dia, por volta de 1979, já sentindo que a Anistia estava colocando suas asinhas de fora, resolvi cortar. Dei a ditadura por terminada, entrei numa barbearia no Boulevard Voltaire e tosei o cabelo. Sai de lá com uma cara de menino, feliz da vida. Mas a ditadura não tinha acabado.

Ideia 2: Ser piloto de Fórmula 1

Sim, levava a sério a ideia, quando morava em Brasília, na época da inauguração. Era colega de sala do Alex Dias Ribeiro no Caseb e, em vez de ir procurar na enciclopédia quem era Villegaignon, quem era Mauricio de Nassau, ficávamos envenenando nossos carrinhos pro campeonato de autorama no final de semana. Queria porque queria me tornar um piloto de Fórmula 1, como Jim Clark. Devorava cada página da revista Autoesporte e vivia desenhando os bólidos dos meus sonhos na última página dos cadernos escolares. Alex seguiu adiante, foi um sucesso e eu fiquei pra trás. Hoje, tantos anos depois, nem dirigir um automóvel eu sei. Nem nunca soube.

Ideia 3: Escrever a biografia do Edson Luís

Assim que o estudante Edson Luís de Lima Souto, 16 anos, caiu morto na porta do restaurante Calabouço, no Rio, naquele 28 de março de1968, comecei a guardar recortes de jornais e revistas que falavam dele. Virou o meu herói. Os tiros que pararam aquele coração de estudante me encheram de ódio. Os recortes ficaram durante muitos anos guardados numa pasta de cartolina cor de rosa e acabaram esquecidos com o fim do primeiro casamento. A desculpa para não escrever a biografia sempre foi a tal pasta cor de rosa que nunca mais recuperei. Se tivesse aqueles recortes até hoje, escreveria a biografia do Edson Luís. Será mesmo que escreveria?

Ideia 4: Modificar a banana

Na verdade, a ideia não é minha, é do meu filho mais velho. Quando ele era pequenininho e eu estava ali naquela cozinha na Avenida Higienópolis dando comida pra ele, numa fase que menino não quer comer nada, depois que lhe ofereci uma fatia de melancia, ele soltou essa: Pai, porque todas as frutas não tem a embalagem da banana? Aquilo ficou na minha cabeça. Sei lá, pensei até em mandar uma carta com a sugestão pra Embrapa, ou então para aqueles japoneses malucos que criaram a melancia quadrada. Mas achei que era impossível transformar um abacaxi, uma laranja ou uma manga, em formato de banana. Agora, que a ideia é boa, isso é.

Ideia 5: Plantar cana em Cuba

Juro por Deus que essa ideia já passou pela minha cabeça. Foi quando dois policiais me pararam na Savassi, em Belo Horizonte, e queriam me levar preso, desconfiados que eu era o terrorista Alemão. Assim que me livrei das garras daqueles gorilas – era assim que chamávamos os policiais do regime militar – pensei em me mudar pra Cuba, ir plantar cana, ajudar e lutar com aquele povo. Cheguei a comentar a ideia com a Aretuza da Une, que me deu uns cartões postais de plantadores de cana na região de Santa Clara, que um dia ela trouxe de lá. Fiquei olhando aqueles postais durante alguns dias, mas escondi no fundo da gaveta da minha escrivaninha e nunca levei a ideia adiante.

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