Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Chuchu gourmet?

Cultura

Refogado

Chuchu gourmet?

por Marcio Alemão publicado 29/12/2010 10h20, última modificação 29/12/2010 10h40
Mesmo com pouca popularidade, o legume vende muito e até rende boas receitas

Mesmo com pouca popularidade, o legume vende muito e até rende boas receitas

Eu perguntei e me responderam que um produtor pode conseguir por uma caixa de chuchu alguma coisa entre 2 e 40 reais. Vai da época, vai da procura e vai do chuchu. O último motivo é o mais esquisito. Claro que vivemos em um mundo que descobriu a importância de se agregar valor a tudo; mas qual seria o truque do chuchu de 40 mangos?

Vamos pensar do lado da famosa demanda. Alguém fica louquinho para comer um chuchu? Se uma praga viesse a dizimar os chuchuzais – seria esse o local onde viceja a hortaliça fruto? –, qual seria o tamanho da nossa dor, gastronomicamente falando? Respondo primeiro: eu não derramaria uma lágrima sequer.

Aqui no Refô já falei um monte de vezes sobre algumas comidas que não passamos sem. Tem a nova turma que não sobrevive sete dias sem um lance japa pra mergulhar numa piscininha de sódio chamada shoyo. Sem feijão muitos não passam.  Sem a feijoada, então... Sem uma pizza no domingo o paulistano não encara a nova semana. Sem um churrasco, nobre ou ordinário, poucos sobrevivem. Sem um bom prato de macarrão uma legião de dependentes entra em crise de abstinência após cinco dias. Sem o chuchu, não creio que erro se afirmo, podemos tocar a vida com alegria.

No entanto, acredite, vende muito e é muito consumido. Cheguei a pensar bastante nisso, nesse conceito, nessa imagem, e concluí: não é nada ruim ser um chuchu na vida. Em tempo, quantos não o são? Pessoas e lugares e coisas que são isso, ou seja: chuchus; ou seja: nada. Não fazem falta, não têm a menor expressão, não precisam ser melhores, não precisam se esforçar para agradar, porque não se espera muito deles. Mas lá e cá estão, sempre. Até destaque na mídia o danado já conseguiu.

Lembrou-me bem um amigo sobre um distante episódio em 1977, quando o chuchu teria sido responsabilizado pelo aumento do custo de vida dos brasileiros. O ministro da Fazenda da época, Mario Henrique Simonsen, teria aparecido nos principais noticiários para tentar explicar o fenômeno. E partiu de uma verdade que não foi contestada: pouca gente come, pouca gente gosta. No final, tudo parece não ter passado de um mal-entendido. Também recentemente chamaram o ex-governador de São Paulo e, à época, candidato à Presidência da República, Geraldo Alckmin, de “picolé de chuchu”. Mesmo sendo nada, vende bastante.  É difícil a dona ou o dono de casa voltar da feira ou de uma quitanda sem ele na cesta. Quase rindo, me pergunto: por quê?
E essas dúvidas todas surgiram no fim de semana, quando fui para o interior. Por estradas de terra, a caminho do hotel que me hospedaria, fui cruzando com pequenos sítios. Alguns fedorentos, com suas criações de galinha. Vários outros com seus varais de chuchu. A planta não é exigente, me garante um agrônomo, e pouco sujeita a pragas. Sobre a última informação brinquei: as pragas também não gostam muito dele?
De volta ao pensamento de linhas acima, sobre o quase nada que essa planta é, perceba que existe uma coerência interessante na existência da hortaliça. “Cultive-me. Sou facinha. Não tomarei seu tempo. Não te deixarei rico, mas certamente prejuízo não te darei. Me vendo com facilidade. Meus pares se equivalem. Agora, se quiser encarar o enjoadinho do café, se prepara que o chumbo é grosso.”

Tudo pouco. Pouco trabalho, pouco dinheiro, pouco sabor. Mas acredite: tenho algumas boas receitas com o tal. Rápidos exemplos. Cozinhe e bata no liquidificador com alho, azeite, sal e limão. Tome fria essa sopa/suco. Se preferir, jogue-a bem quente sobre um bacalhau já cozido e desfiado. Ou acrescente um pouco de creme de leite, coloque tudo no sifão e produza uma sofisticada espuma para acompanhar um camarão salteado com tomates frescos.