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Castigo sem crime

por Matheus Pichonelli publicado 30/01/2012 08h55, última modificação 06/06/2015 18h56
Dramas entre pais e filhos em cartaz expõem dilemas sobre uma realidade que pede para ser contada, e não reinventada
Separação 2

Trama leva pai e filha a lados opostos diante da mesma história em "A Separação"

Dois dos grandes filmes estrangeiros lançados por aqui neste ano tiveram destinos diferentes nas indicações para o Oscar de 2012. Aclamado pela crítica, “A Separação”, do iraniano Asghar Farhadi, desponta como favorito para levar a estatueta depois de vencer o Globo de Ouro e se tornar o primeiro longa da história a receber três Ursos em Berlim: dois de prata (de melhor ator e melhor atriz) e o Ouro de melhor filme. Virou o filme que todos querem ver no fim de semana.

Menos badalado, o francês “A Guerra Está Declarada”, de Valérie Donzelli, revelação em Cannes de 2011 e “indicado à indicação” no Oscar, ficou no caminho e não concorrerá em Hollywood. Pena. Porque a briga seria boa.

Da safra atualmente em cartaz, os dois filmes são provavelmente as melhores leituras de um tempo desconexo e truncado, arrogante e incompreensível. Nos dois casos há uma cena recorrente: um casal angustiado, com os rostos vacilantes diante de uma câmera fixa, sentado diante de uma mesa e à espera de uma sentença. Num caso, de um juiz. De outro, de um cirurgião.

Em “A Separação”, Nader (Peyman Moaadi) e Simin (Leila Hatami) têm um impasse. Ela tem um visto para morar em outro país (o destino é ignorado), mas encontra resistência do marido. Ele se recusa a viajar com ela porque precisa ficar e cuidar do pai, que tem Alzheimer. O consenso parece distante: Simin hesita em partir ou ficar, mas espera que Nader implore sua permanência. A espera inútil leva a outro litígio: com quem a filha, de 11 anos, vai ficar?

Termeh, interpretada por Sarina Farhadi, é o ponto que conecta todos os outros personagens. Embora jovem, é ela quem escrutina as obsessões juvenis dos pais. É dela o último resquício de bom-senso de uma casa tomada pela infantilidade adulta, disposta a acionar instâncias superiores para resolver uma questão aparentemente simples.

Vencida a queda de braço, Nader se vê sozinho em casa com uma filha e um pai para cuidar. Uma é a consciência que desperta, o outro já não a tem. Nada que não possa piorar: para ajudar em casa, ele contrata uma diarista, muçulmana fundamentalista, para tomar conta do pai. Embora necessite do dinheiro, a diarista aceita o trabalho, mesmo não podendo sequer tocar as mãos em outro homem ou frequentar a casa de homem solteiro, caso de Nader.

É a receita para o desastre.

Um dia, ao chegar em casa mais cedo, ele encontra o pai em situação de abandono, trancado e amarrado no quarto. E decide expulsar a mulher.

A expulsão, rude como se pode imaginar, resulta numa tragédia desproporcional. E Nader, ao decretar a própria justiça, passa a ser perseguido pela própria família, pela família da doméstica, e pela Justiça. É acusado de assassinato.

De longe, a situação mais delicada é a do juiz, que deverá emitir uma decisão com base em declarações e testemunhos desconexos, de quem já não tem certeza da própria culpa ou acusação. Mas a Justiça, como a vida, pede sempre um culpado, e para isso é necessário racionalizar e mensurar na forma da pena um conjunto de atitudes irracionais, de consequências impensadas.

É quando o destino começa a escapar do controle, apesar dos esforços em contrário. E o controle envolve a capacidade de se refazer os passos, recontar uma mesma história de final e motivações diferentes. É como segurar uma barragem com um único graveto.

O nome do graveto é coerência, e não dura a meio segunda da inquisição de uma criança de 11 anos: “Pai, você mentiu?”.

Para ela, a condenação ou a absolvição não importa tanto quanto a verdade. Para o pai, não pode haver humilhação maior. Mesmo assim, para provar o que dizem, e cada parte tem apenas uma versão dos fatos, as humilhações são engolidas uma a uma. Enquanto as filhas dos casais brincam e se entendem, à espera de uma solução minimamente madura que impeça a demolição de um castelo firmado sobre honras e desmentidos.

Sem mar de rosas

Como Termeh, é Adam, o bebê com câncer de “A Guerra Está Declarada”, quem pautará toda a ação dos pais, os jovens Roméo (Jérémie Elkaïm) e Juliette (Valérie Donzelli).

Se num filme a infância passa a ser decidida num tribunal, no outro são os corredores de um hospital o cenário para os dilemas de um jovem casal e seu destino trágico anunciado, como supõem os próprios nomes.

A teimosia deles, porém, tem outra natureza. Diante de um diagnóstico contundente, unem-se com todas as forças para garantir ao filho um sopro de vida a cada passo. Adam tem câncer na cabeça, e só tem chance de sobreviver se passar por uma delicada cirurgia.

A tragédia é o ponto de convergência dos humores ainda adolescentes, prestes a serem sepultados, do casal. Para vencer a guerra, parte dos sonhos será deitada ao chão. Cientes de que quase nunca a vida é injusta a nosso favor, Roméo e Juliette fazem um pacto: não vão se desesperar, não vão buscar soluções milagreiras na internet, não vão contestar os médicos. Recrutam os pais e amigos para fechar a corrente de apoio e a logística de um tratamento que pode levar anos.

A decisão os leva a uma vida sem conforto nem eufemismo. Numa das cenas, Juliette encontra uma antiga amiga de classe na rua e, como é de se esperar, passa por um bombardeio: se casou, se trabalha, se está rica, se teve filhos.

As amigas, mães àquela altura, passam a falar dos filhos. E Juliette conta: meu filho tem câncer na cabeça.

Desnorteada, a amiga abandona a conversa. Porque, nessas horas, espera-se sempre a comoção, o eufemismo, a realidade encoberta – só que nada disso estava no pacto.

Como a mãe, Roméo também é poupado das brincadeiras entre amigos, que têm pena da sua condição. “Não fala assim com ele. O filho dele é doente”, diz um amigo, á meia boca, para não ser ouvido.

Como se a cura fosse comprometida com a pronúncia de palavras incômodas.

Num tempo em que comandantes deixam seus passageiros e tripulação à própria sorte para salvar a vida num naufrágio, e inventam histórias para justificar a própria covardia, Roméo e Juliette arregaçam as mangas. A casa onde sonharam viver é vendida para custear o tratamento. E o cartão de crédito é tomado pelo banco – e ao ser questionado sobre os motivos do rombo, o pai simplesmente diz ter hábitos extravagantes. Podia ter chorado e relatado seus lamentos, tudo pelo filho doente. Opta, simplesmente, por ser pai e silenciar. Que culpa o filho tem, afinal?

Assim, driblam o auto-engano. Em cena memorável, quando Adam está prestes a entrar na sala da cirurgia, os pais ficam a sós com ele e, como se fosse um jovem soldado a caminho do front, passam a ele as instruções. “Seja forte, esse é seu grande dia. Estamos orgulhosos de você”.

Embora inconsciente, é claro, da própria condição, o bebê desde cedo não é poupado da verdade. Porque está nela todo o fio de esperança. Como o filho, os pais dependem da franqueza dos médicos para saber o que fazer. “A situação é grave? Se sim, o que devemos fazer? Há outras opções?”.

Nas entrelinhas está: “Seja implacável. Tudo menos os rodeios e o engano”.

Não deixa de ser uma sentença.

Na guerra ou na separação é quase impossível deixar o cinema sem o coração na boca. Por caminhos (e louros) diversos, os filmes parecem mostrar como a realidade é sempre mais bruta, brusca e complexa que qualquer sonho – seja no Irã, na França ou no Brasil. E, tanto num caso como no outro, maquiar as próprias histórias não vão tornam o casamento, e a vida, no mar de rosas cantado nas histórias de amor. De perto, elas são muito piores. E é bom que alguém tenha tocado no assunto.