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Cultura

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Casa de Hilda Hilst vira palco de teatro no interior de SP

por Amanda Cotrim — publicado , última modificação 22/04/2013 16h59
A peça "Jozú, o Encantador de Ratos" foi encenada na estreia do Teatro da Casa do Sol, onde viveu a escritora
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A casa de Hilda Hilst virou palco de teatro. Fotos: Rodolfo Formigari

Se fosse viva, a escritora Hilda Hilst completaria 83 anos no domingo 21. Paulista de Jaú, a poetiza, morta em fevereiro de 2004, morou a maior parte de sua vida na Casa do Sol, hoje sede do Instituto Hilda Hilst, entre Campinas e Jaguariúna, a 130 km de São Paulo. Pois na data em que faria aniversário, cerca de 100 pessoas viram o local se transformar em palco, literalmente, de seu primeiro teatro com a apresentação fechada da peça “Jozú, o Encantador de Ratos”. O espetáculo é um projeto da atriz Carla Tausz e do escritor José Luiz Mora Fuentes, que foi grande amigo da escritora e fundador do Instituto.

O público presente foi convidado a entrar no novo teatro que já tinha cor e cheiro: de terra, de mato, de velas, de luz e de sombra. Os cães que vivem na Casa do Sol, muitos desde os tempos de Hilda Hilst, completavam a plateia.

A iluminação era artificial, mas a penumbra, natural. Quando os refletores se apagavam, a luz da lua iluminava o palco. Carla Tausz contou com uma sonoplastia privilegiada: ao fundo, cachorros uivaram de um lugar distante. O vento, que balançava as árvores, também apareceu.

No local, contou o amigo e administrador do Instituto, Jurandy Valença, a escritora chegou a fazer algumas experiências para se comunicar com o outro lado da vida. Tentava falar com os mortos através das ondas do rádio. Há gravações, arquivadas no Instituto, que comprovam que, em ao menos uma dessas experimentações, alguém respondeu “sim” à pergunta: “Tem alguém aí?”.

No espetáculo de domingo, houve um momento em que a gravação de Hilda Hilst lendo sua própria peça de teatro foi colocada em cena. A escritora conseguia dar ritmo à sua prosa, poesia, peças de teatro... “Hilda fazia questão de ler seus textos em voz alta”, lembrou Valença.

Na peça, Jozú, figura dramática e metafórica, ganha a vida treinando seu rato de estimação, que é também seu melhor amigo. Visita com frequência o interior de um poço seco, onde recebe algumas revelações, nem sempre compreendidas. Incompreendida, aliás, como se sentia Hilda, conforme já revelou a amiga da escritora Olga Bilenky.

O monólogo trata sobre a solidão humana, sem deixar o senso de humor e a ironia - características da obra de Hilda Hilst- de lado. O espetáculo já foi apresentado no Rio de Janeiro, Bahia, Santa Catarina, São Paulo, Paraná e Minas Gerais, onde recebeu os prêmios de Melhor Atriz e Melhor Iluminação, além de indicações para Melhor Espetáculo e Melhor Adaptação no Festival de Teatro de Juiz de Fora.

O novo teatro tem capacidade para 100 pessoas e fica no coração da casa de Hilda: o pátio. Toda a estrutura do assento é móvel e pode ser deslocado para outros pontos da casa ou do jardim. As únicas estruturas fixas são as barras de aço para sustentar os refletores, como informou o presidente do Instituto Hilda Hilst, Daniel Fuentes.

A iniciativa foi possível graças ao sistema de crowdfunding (doações via internet) em parceria entre o Instituto e a empresa Soul Social, responsável por gerir o projeto das doações. Fãs de Hilda Hilst de todo o Brasil e do exterior doaram. De acordo com a proprietária da Soul Social, Silvana Santos, o objetivo era conquistar a meta em três meses. Mas o sucesso foi tanto que os 16 mil reais foram arrecadados em dois meses.

A Casa do Sol foi tombada como patrimônio histórico em 2011. E a criação do teatro só foi possível por causa do tombamento, como afirmou o presidente do Instituto, durante a noite de inauguração. Segundo ele, o novo teatro será um espaço alternativo para o público e os artistas.

A programação será focada em montagens teatrais, tanto inspiradas na obra de Hilda Hilst, como também peças de autores contemporâneos, além de recitais de música e poesia. A próxima peça a ser apresentada no espaço, ainda sem data definida, será 'A Obscena Senhora D', texto de Hilda Hilst, e montagem do grupo paulistano Circo do Silêncio.