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Crônica do Villas

Carta de Amor

por Alberto Villas publicado 06/11/2014 10h28, última modificação 06/11/2014 10h31
Não sei quantas escrevi na minha vida. Mas a primeira, aquela para Teresa, a gente nunca se esquece. Por Alberto Villas
Flickr / Laura Moreira
Carta

A primeira carta, a gente nunca se esquece.

Não sei quantas escrevi na minha vida. Um punhado, talvez umas trinta ao todo, no máximo. A primeira, a gente nunca se esquece. Foi pra Teresa, assim que voltei para Belo Horizonte, perdidamente apaixonado, depois daquele nosso primeiro encontro numa festa de São João.

Criei coragem, comprei um bloco Aviador e com a minha caneta Sheaffer comecei com um “Querida Teresa”, como se fosse gente grande. Foram duas páginas inteiras escritas naquele papel fininho de seda, recheado de poesia e declarações de amor. Lembrei a ela todos os detalhes daquela noite, dos balões coloridos iluminando Cataguases numa noite fria de inverno. Do primeiro quentão que tomamos juntos, do tiro-ao-alvo, daquele porquinho-da-índia que insistia em não entrar na casinha com o número que havíamos apostado.

Lembrei do chão de terra cheio de pedrinhas incomodando seus pés delicados dentro de uma sandália de couro fino, percorrendo o caminho de volta até a porta da sua casa, na rua Major Vieira. Brinquei com ela, modificando uma velha canção de Luiz Gonzaga: “Eu já andei sem parar/ dezessete léguas e meia/Pra ir num forró dançar/Valeu a pena eu andar/Dezessete léguas e meia/Pois Teresa tava lá/Ai ai ai ai/A Teresa tava lá”. No fundo no fundo, a carta queria dizer apenas que eu estava muito apaixonado, como  naquela outra canção, agora de Caetano, que dizia que não há amor como o primeiro amor que é puro e verdadeiro. Era mesmo.

Li e reli a carta umas cinco vezes, antes de dobrar em quatro aquele papel de seda com todo cuidado e colocar dentro do envelope verde e amarelo escrito em azul Via aérea/Par avion. Com goma arábica, lacrei para não correr o risco de alguém ler aquelas minhas palavras que eram só para Teresa. Junto com a carta, mandei uma fotografia 3X4, tirada no Foto Zatz, no centro da cidade.

No PS, escrevi que era para ela colocar na carteira, como todo mundo fazia. Toda carteira tinha um lugar reservado para guardar fotografias 3X4 de pessoas queridas, namoradas, filhos, esposa, sobrinhos , afilhados. Fui ao correio e despachei a carta.

Voltei pra casa já esperando uma resposta. Todo dia cedo, acordava e ia até a caixa de cartas embutida no muro da minha casa, na esperança de encontrar lá, algumas palavras de Teresa.

Não demorou muito, chegou. Foi numa manhã de sábado, perguntando quando voltaria a Cataguases porque já sentia saudade também. Não tocou no assunto pedrinhas no pé delicado, na música de Gonzaga, nem tampouco no porquinho-da-índia branco com manchas pretas naquela festa de São João. Contou novidades do colégio, das provas finais que estavam chegando, do frio que já tinha ido embora da cidade e da banca de jornal que ela passava em frente todos os dias e se lembrava de mim. Sim, eu era um rato de banca desde a juventude, procurando aquele fascículo da Abril Cultural que faltava pra minha coleção.

Teresa mandou também uma fotografia 3X4 que foi direto pra minha carteira. Ela tinha os cabelos lisos e loiros e uma cara meio séria. Era uma beleza que queria para mim, para o resto da vida, juro.  Várias vezes por dia abria minha carteira só pra ver aquele fotografia ali dentro, Teresa olhando para mim.

Confesso que cheirei a carta em busca de um perfume que ela usava, sei lá, acho que Seiva de Alfazema. Mas nada. A carta tinha cheiro de goma arábica, como a minha. Hoje eu me lembrei dessa carta porque peguei pra ler as crônicas reunidas de Sergio Porto no livro O Homem ao Lado e, na página 113, encontrei uma com o titulo “As saudades de Teresa”. Nas primeiras linhas, li: “Na correspondência que estava sobre a secretária e que eu fora abrindo sem olhar o endereço, havia uma carta que começava assim: Meu querido Alberto”.

Achei muita coincidência.

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