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Cultura

Crônica do Menalton

Carne levare

por Menalton Braff publicado 04/02/2016 18h06, última modificação 06/02/2016 08h39
Afirmam os estudiosos do assunto que o Carnaval era uma válvula de escape para o peso da civilização
Carnaval em Roma em 1560

O carnaval tem sua origem provavelmente nas celebrações ao deus Dioniso

É provável que dessa expressão – Carne levare – tenha vindo a palavra carnaval. “Afastar a carne” seria seu significado. O Carnaval tem sua origem provavelmente nas celebrações ao deus Dioniso, na Grécia, ou Baco, em Roma.

Tais celebrações tinham a forma de festas orgiásticas em que o vinho liberava os costumes e tudo era permitido. Afirmam os estudiosos do assunto que era uma válvula de escape para o peso da civilização.

Quanto maior o grau de civilização de um povo, maiores serão os impedimentos, as proibições, os encargos. Como afirmou um de nossos indianistas, já não me lembro qual, se você, na floresta se põe a gritar como um louco, o máximo que acontece é assustar alguns pássaros, que voarão espantados.

Faça isso na rua Direita, em São Paulo, e em menos de cinco minutos estará dentro de um camburão. Aqui não pode. Nostálgico de sua vida primitiva e livre, o homem tinha necessidade de deixar-se conduzir pelos instintos vez por outra para não arrebentar. A embriaguez era o caminho mais rápido.

O cristianismo incorporou a festa pagã, dando-lhe novo sentido superficial, sem lhe alterar o fundo, as razões que levam o homem a verdadeiras explosões de alegria e prazer.

O Carnaval passa, então, a ser uma espécie de despedida da carnalidade, do prazer, uma vez que todo cristão deve lembrar agora o martírio e morte de Cristo. Pode não lembrar, como penso que a maioria não pense, mas deveria.

No carnaval as pessoas costumavam divertir-se, primeiro apenas nas ruas, depois com variantes de salão. Enfim, dançar, cantar, pular faziam parte das atividades com que seres civilizados promoviam a catarse para suportar mais um ano de civilização. A gravata substituída por uma fantasia colorida.

Com raras exceções, como a Bahia, o Carnaval virou festa para turista. Perdeu inteiramente o significado original.

Desfile de Carnaval no Rio de Janeiro
Com raras exceções, o Carnaval virou festa para turista

 

Montam-se carros suntuosos (em um país de maioria muito pobre) para que desfilem principalmente perante uma plateia de estrangeiros que deverão deixar muitos dólares por aqui. Vocês já imaginaram um Carnaval sem turistas? Pior do que futebol sem torcedor. Sem turistas, cantar pra quê?, ficar alegre pra quem?

Um grande negócio. E o povo? Bate palmas na arquibancada.

Então no dia seguinte, seja quarta, ou quinta (em alguns lugares vira a semana e só acaba na outra segunda), aquele gosto amargo na boca e a sensação de que não aconteceu nada, que tudo não passou de miragem, a maior causadora de alegria. Acho que até já disse por aqui que não entendo data marcada tanto para a alegria quanto para a tristeza. Não consigo me sentir marionete, manipulado pelo cordão dos humores.  

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