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Cultura

Calçada da Memória

Carl Theodor Dreyer, artista da alma

por José Geraldo Couto — publicado 07/06/2012 14h19, última modificação 07/06/2012 14h21
O cineasta dinamarquês moldou o 'realismo metafísico' que evocava plasticamente a espiritualidade mais profunda e atormentada
calcada

Carl Theodor Dreyer, rigor que nega concessões e espiritualidade atormentada

Ao defender para o cinema o estatuto de arte, o crítico André Bazin escreveu: “Um Dreyer rivaliza com os grandes pintores do Renascimento italiano ou da escola flamenga”. Referia-se ao dinamarquês Carl Theodor Dreyer (1889-1968).

Por seu rigor e autoexigência, por sua recusa às concessões, a carreira desse “cineasta da alma” foi truncada, esparsa e nômade: em 45 anos, apenas 14 longas rodados em cinco países.Filho ilegítimo de um fazendeiro sueco e sua governanta, Dreyer foi criado pela família de um tipógrafo. Cursou escola técnica, aprendeu piano e trabalhou como jornalista antes de ingressar, em 1912, na Nordisk Film, onde foi redator de legendas, depois adaptador, roteirista e, por fim, diretor.

Nos anos 1920 moldou seu “realismo metafísico”, que consiste em evocar plasticamente a espiritualidade mais profunda e atormentada. Em suas próprias palavras: “O que tem valor é a verdade artística, isto é, a verdade tirada da vida vivida, mas depurada de todos os detalhes inúteis: a verdade filtrada através da alma de um artista”.

O êxito artístico de suas primeiras obras valeu-lhe um convite para filmar na França, e o resultado foi O Martírio de Joana D’Arc (1928), um dos ápices do cinema. Seguiu-se O Vampiro (1932), seu primeiro filme sonoro, em que a luz onírica sugere o trânsito entre os mundos dos vivos e dos mortos.

Depois do fracasso comercial de O Vampiro, rodou uma obra-prima a cada dez anos: Dias de Ira (1943), A Palavra (1955), Gertrud (1965). Sobreviveu dirigindo um cinema em Copenhague, frustrado por não realizar seu projeto mais ambicioso, uma vida de Jesus.

DVDs:

O Martírio de Joana D’Arc (1928)
Baseado no processo real de Joana D’Arc em Rouen, no século XV, este intenso drama se faz de closes da santa rebelde (Maria Falconetti) e de seus juízes. O estilo ascético e o perfeccionismo de Dreyer teriam levado à loucura a atriz, que de fato nunca mais filmou. Antonin Artaud vive um monge solidário com a ré.

Dias de Ira (1943)
Num vilarejo dinamarquês do século XVII, uma jovem (Lisbeth Movin) se casa com o sacerdote local, mas se apaixona pelo filho deste (Preben Lerdorff Rye). Sua sogra empenha-se em denunciar a “relação diabólica”, no contexto de uma insana caça às bruxas. Filme terrível, em que Dreyer expressa todo o seu horror à intolerância.

Ordet – A Palavra (1955)
Dinamarca, 1925. Um fazendeiro e seus filhos. O mais velho é agnóstico; o caçula namora a filha de um artesão de uma seita rival; o do meio, Johannes, crê que é Jesus. Quando a mulher do mais velho morre no parto, Johannes julga poder ressuscitá-la. Obra-prima absoluta, definida por Truffaut como “fábula metafísica”.