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Cultura

Festival de Cannes

Síndrome do deslocamento afeta Cannes

por Orlando Margarido — publicado 19/05/2015 14h27, última modificação 19/05/2015 14h27
Alguns concorrentes à Palma de Ouro se enquadram na categoria de filmes modestos e locais catapultados por prêmios importantes
Divulgação
Tale of Tales

Sem abrir mão de estilo, diretor Matteo Garrone mantém a marca barroca e o estilo de filmagens que o distingue em 'Tale of Tales'

De Cannes

A competição deste ano do Festival de Cannes parece viver uma síndrome do deslocamento. Explico. Diretores de registro mais autoral, com filmes modestos realizados em seus países de origem e em geral interessados nos temas circunscritos à sociedade em que vivem, são catapultados por prêmios importantes em festivais de ressonância como Cannes e, bingo, passam de imediato a grande produção de nível internacional. Isso inclui, claro, orçamento mais polpudo e elenco com estrelas ou ao menos nomes conhecidos. E quase sempre com chancela de Hollywood.

O contraponto de toda essa escalada pode, não obrigatoriamente, ser a perda da criatividade, do vínculo com uma assinatura e identidade antes tão evidentes. Parece ser o caso agora, em maior ou menor grau, de alguns concorrentes à Palma de Ouro.

Logo de cara, no primeiro dia, Matteo Garrone exemplificou com Conto dos Contos um tanto do cenário, sem contudo abrir mão de certo estilo, ao manter a marca barroca e o saber filmar que o distingue. Mas não se pode dizer que esteja ali o contexto italiano explorado em Gomorra e Reality, uma temática que fala da atualidade do país sem sacrificar um tom universal.

O que veio em seguida só aumentou essa sensação de um esvaziamento do tom personalista em função do ganho, se é que este existe, em termos de diálogo com um público maior. Verdade que The Lobster está longe de falar a qualquer espectador com seu parti pris extravagante, sua parábola distópica em um futuro logo adiante. Mas pode-se imaginar como soaria muito mais forte se Yorgos Lanthimos mantivesse sua ideia circunscrita à Grécia, com atores locais e anônimos a nós.

É inevitável não levar em conta a carga de reconhecimento de Colin Ferrell como protagonista, no papel de um solteiro que infringe a lei então adotada de que todas as pessoas devem se casar, pois do contrário serão transformadas em animais. Bastou lembrar de um filme grego exibido na Mostra, como muitos de simplicidade exemplar na produção, no qual um rapaz para sobreviver em plena crise econômica se alimenta do alpiste do pássaro de estimação, além de fluídos de seu corpo não menos indigestos.

O caso mais evidente é Louder than Bombs, a primeira coprodução de nível internacional do norueguês Joachim Trier. Antes, ele assinou Oslo, 31 de Agosto, segundo longa que chegou a ser exibido no circuito brasileiro. Seu cinema se volta a problemática de relações, e neste filme anterior tratava de um jovem ex-viciado em drogas que tenta se reintegrar no meio social.

O prisma de certa forma se mantém agora, mas é ampliado e realocado aos Estados Unidos, onde está a família de um ex-ator que se tornou professor do ensino médio, sua mulher fotógrafa de guerra e os dois filhos. Gabriel Byrne, Isabelle Huppert e Jeisse Eisenberg lideram o elenco.

Até aí, nada demais. São bons atores e o contraponto europeu da francesa Huppert joga a favor. Quando o filme começa, há uma homenagem depois de alguns anos de sua morte, não em ação, como se poderia supor, mas em um acidente de carro. Saberemos mais tarde que estava a base de medicamentos, deprimida. O foco é o filho caçula, inconformado e rebelde ao pai em função da perda.

O mais velho se casou e o filme abre com uma bonita cena dele com o bebê, assim como há outras, a exemplo da atriz que encara a câmera longamente. Distanciamento e certa frieza são habilidades no caso de Trier por saber dar a medida certa para não cair no melodramático. Mas acho ser mais razão de prudência, de uma falta de maior risco presente no trabalho anterior. Saí com a impressão de que um diretor de língua inglesa, da casa talvez, e mais refinado do que a média, daria conta igual.

Não quero com isso defender a postura autoral eterna de um cineasta, obrigado a se manter em seu território para apenas dessa forma fazer bom cinema. Mas o contraponto dos que ainda jovens ou veteranos assim procedem nos filmes vistos até agora é evidente. Para começar, Nanni Moretti poderia ser identificado com seu Mia Madre como um realizador de caráter universal sem abrir mão do traço italiano tão reconhecido da filiação dependente e dedicação aos genitores, e mais ainda a mãe.

Também o francês Stéphane Brizé fala nada menos do que a crise globalizada, do desemprego, sem ser eurocêntrico em La Loi du Marché.  E, considerando a janela fundamental aqui da paralela Un Certain Regard, Naomi Kawase, Apichatpong Weeresathakul e Brillante Mendoza, de quem acabo de ver Trap sobre o drama recente dos tufões nas Filipinas, apontam para as aflições locais e conquistam o olhar do mundo.

 

Não é o que se pode dizer do canadense Denis Villeneuve, sem que isso seja uma surpresa. Desde seu segundo filme Incêndios, em 2010, ambicioso painel dramático no Oriente Médio, ele ameaça voos muito mais altos, e tanto Os Suspeitos quanto O Homem Duplicado confirmaram a pretensão em produções americanas e Jake Gyllenhall como ator predileto. Mas nenhum deles tem a dimensão a thriller maior do que Sicario, exibido esta manhã, e definidor do que moço busca.

A guerra do tráfico no México é justificativa para um grupo de agentes americanos, em um conluio entre CIA e FBI não oficial, caçar um chefão de cartel. Emily Blunt interpreta a profissional determinada mas ainda apegada à ética e às leis, ingenuidade que será questionada pelos atos do seu chefe (Josh Brolin) e de um integrante misterioso da missão, Benício Del Toro em seu costumeiro tipo irônico.

Ao diretor, todo o crédito da expertise nas filmagens, pique e ação sempre mantidos no tom mais alto. Difícil será encontrar algum traço personalizado. Mas, diga-se em favor de Villeneuve, ele não parece deslocado.