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Canário do samba

por Pedro Alexandre Sanches — publicado 09/02/2011 09h38, última modificação 14/02/2011 17h05
Caixa com inéditos revisita o último rebelde da MPB Tim Maia, responsável por unir o soul às raízes rítmicas do Brasil. Por Pedro Alexandre Sanches
Canário do samba

Caixa com inéditos revisita o último rebelde da MPB Tim Maia, responsável por unir o soul às raízes rítmicas do Brasil. Por Pedro Alexandre Sanches. Foto: Jorge Perter/Ag. O Globo

Caixa com inéditos revisita o último rebelde da MPB Tim Maia, responsável por unir o soul às raízes rítmicas do Brasil

É um chavão, mas, morto há 12 anos, Tim Maia anda se revirando no túmulo ultimamente. Como acontece de tempos em tempos, a indústria do entretenimento volta a sapatear sobre o cadáver do sambista (sim, nosso maior soulman era um sambista) com quem viveu às turras quase ininterruptas enquanto ele viveu neste país tropical. Vivo, Tim Maia foi possivelmente o mais rebelde artista brasileiro de seu tempo, e um rebelde de fato, desobediente, não daqueles que pregam insurreição apenas para consumo externo, dos fãs. A voz do morto cura tudo, até mesmo inimizades históricas e desavenças homéricas.

De um lado, está a caixa Tim Universal Maia, que estabelece um trocadilho entre a mitológica fase religiosa do artista e o nome da gravadora detentora dos oito discos (mais um DVD ao vivo) inseridos no pacote. A homenagem exclui os dois volumes musicalmente abrasivos de Tim Maia Racional (1974-1975), porque à época o titã carioca havia quebrado a sala da diretoria da Philips (hoje Universal, mas não do Reino de Deus) e resolvera ser independente das multinacionais, antes que qualquer compatriota o fosse.

A gravadora presta tributo e repõe na praça trabalhos transcendentais do artista, como os LPs sem título de 1970, 1971, 1972, 1973, 1976 e 1980 e a obra-prima de romantismo “black” O Descobridor dos Sete Mares (1983). Mas sapateia para o mal aqui e ali, como numa das monumentais baladas desesperadas de Tim, Lamento (1972). A transcrição digital suprime misteriosamente o segundo e o terceiro versos da canção. Decidi/ viver agora/ desde que pensei em mim/ quase tudo mudou é condensada, num passe de mágica, em decidi/ quase tudo mudou, como se “viver agora” e “pensar em mim” fossem categorias proibidas. Parece ato falho freudiano, mas a quem acredita que las brujas hay não custará muito supor que o sapateador, neste caso, é o fantasma do encrenqueiro mais fofo da história do Brasil, para azar do remasterizador descuidado.

De outro lado (ou do mesmo?), há a Coleção Tim Maia, que acaba de estrear nas bancas de jornal no formato de fascículos Abril. São 15 volumes tipo “disco-e-livro”, um por semana, a preços compatíveis com os que Lobão pregava em 1999, quando, 100% brigado com a indústria fonográfica, resolveu ser independente e lançar seus discos feito discos voadores nas bancas, em vez de nas lojas de música.

À época, a imprensa duvidava de Lobão e as gravadoras o tinham como desvairado. Hoje, bancas de jornal viram lojas de discos das “gravadoras” Abril, Folha e Estado. Lobão desfila na São Paulo Fashion Week. E o ex-enjeitado Tim Maia é “o” astro pop do momento na banca-loja da esquina mais próxima. “Tudo é tudo, nada é nada”, filosofaria o autor de Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar) (1971), neste tempo em que “quase tudo mudou”.
Com respaldo do enroladíssimo espólio de Tim, que já havia se unido em torno da bem-sucedida biografia Vale Tudo (Objetiva, 2006), de Nelson Motta, a Abril tira da independência a fase Racional que a Universal não pôde colocar à venda para fiéis e infiéis.

Volta o Racional 1, que a Trama já havia reeditado, e o Racional 2, ainda inédito em CD no circuito oficial. A série trará à tona, ainda mais, um tal Racional 3, suposta continuação que Tim teria gravado antes de se libertar para sempre da organização religiosa Universo em Desencanto. A não ser que haja alguma carta na manga (ou a redescoberta do compacto Tim Maia Racional e Coro Racional, de 1976, com quatro marchinhas carnavalesco-religiosas), são algumas poucas faixas avulsas, mais picaretagem que um verdadeiro “volume 3”.
O Racional 3 será dado de graça aos consumidores, e só àqueles que colecionarem 14 “códigos individuais alfanuméricos” inseridos em cada um dos outros volumes da série.

O artifício, por sinal, lembra muito a numeração de discos preconizada em 2002 pelo “roqueiro” Lobão e pela “sambista” Beth Carvalho, e tida como travessura de moleques pelas indústrias fonográfica e editorial (a lei da numeração passou no Congresso Nacional, apesar da oposição das gravadoras multinacionais e de porta-vozes como Caetano Veloso). O termo “inédito”, em todo caso, é impreciso. Há anos, tudo o que existe sobre Tim circula livre e ilegalmente pela internet, inclusive o Racional 3 e o compacto de carnaval samba-funk com o Coro Racional.

A propósito, Tim Maia foi chamado de “sambista” no primeiro parágrafo deste texto. Criador desesperado sempre obcecado por seu duplo, o “branco positivo ultrarromântico” Roberto Carlos, ele passou às enciclopédias como introdutor definitivo da soul music à moda estadunidense no Brasil. Não é mentira, mas é verdade parcial. Tim era soulman à maneira de Marvin Gaye e funkeiro à moda de James Brown tanto quanto era sambista na linhagem de Nelson Cavaquinho, forrozeiro da estirpe de Luiz Gonzaga e cultuador da fossa nas linhas de bamba de Dolores Duran e Roberto Carlos.

Tim fora inicialmente o patinho feio de uma patota do subúrbio carioca com vocação pop tipo “Beatles brasileiros”. Se tivessem formado um quinteto, contaria com Tim Maia, Jorge Ben, Wilson Simonal, Erasmo Carlos e Roberto Carlos, só. Em história solo, ele patinou cerca de uma década no anonimato. A virada só começou quando Roberto lhe deu a lambuja de lançar seu funk Não Vou Ficar (1969) e, principalmente, quando foi adotado num dueto por Elis Regina, tão romântica e rebelde (para consumo interno, não externo) quanto ele. These Are the Songs fechava o disco de 1970 da cantora gaúcha, num duelo arrepiante de vozes de trovão.

A primeira faixa do primeiro LP que Tim pôde lançar era Coroné Antônio Bento, um baião envenenado composto pelo maranhense João do Vale, o mesmo que fez Carcará, tornado hino de protesto por Nara Leão e Maria Bethânia. No mesmo disco, incluiu funks e baladas soul dedicados ao Padre Cícero e ao Flamengo, Cea­rá e Rio de Janeiro na veia. O funk mais raivoso, cantado em inglês, era dirigido a uma musa de nome indígena, Jurema.
O disco de 1971 era aberto novamente em tempo de forró, com A Festa do Santo Reis. A letra sertaneja vinha explícita: Se deixar com eles, eles levam até os bodes/ é os bodes da gente/ é os bodes, mé. Salve Nossa Senhora tinha idêntica clave de baião (e religião), poucos meses depois de Roberto Carlos introduzir o gospel e o cristianismo no pop brasileiro, com Jesus Cristo.

No terceiro disco, apareciam o mais inspirado dos baiões, Canário do Reino (não precisa de dinheiro pra se ouvir meu canto/ eu sou canário do reino e canto em qualquer lugar), e um funk-soul com nome intrigante, Razão de Sambar: (…) eu dou razão/ para os que pulam, os que sambam, os que dançam a noite inteira sem parar/ por isso mesmo vou pegar meu violão e vou pro samba, vou sambar/ vou sambar, vou sambar, vou sambar…

Tim se expressava entre a cruz e a espada. Tal como Raul Seixas e os Novos Baianos, carregava no sangue os ritmos nordestinos e o samba carioca. Misturava sanfona e guitarra para fazer música brasileira à sua maneira, não de acordo com ditames e convenções sacramentados. Insurgia-se num ambiente no qual negro que não cantava samba era logo xingado de “folgado” (como sabia Simonal) e negra que preferisse bossa nova a samba nem sequer existia (como sabe Alaíde Costa). Desde então, quase tudo mudou, ou não?

Nos anos 70, rivalidades chegavam subentendidas e truncadas ao público, Paulinho da Viola e Martinho da Vila de um lado do front, Tim Maia e Hyldon, do outro. Enquanto Tim vestia o funk em bata branca, Martinho da Vila levava a “raiz” adiante com seus sambas de partido-alto feitos de diálogo direto entre um cantor-líder e um coro. Não era muito diferente daquilo que o não sambista fazia em seu Tim Maia Racional e Coro Racional e faria, com apuro, nos funks de partido-alto do Tim Maia de 1977, lançado pela Som Livre, a gravadora da Globo, futura inimiga de carteirinha do cantor magoado de Me Dê Motivo (1983). Tim morou (e foi encarcerado) nos Estados Unidos antes de ficar famoso. Dizem que voltou americanizado, feito Carmen Miranda? Sim, mas quem não?

É provável que Tim e Martinho se detestassem em 1977. Negros que faziam samba (“música brasileira”) eram um planeta, negros que faziam funk e soul (“música estrangeira”), outro. Guerra declarada, árabes versus judeus. Mas nem por isso Martinho e Tim eram menos parecidos, quase iguais de tão parecidos em suas diferenças. E quase todo mundo sabe que em briga de iguais quem lucra é um terceiro, como esse pessoal (de gravadora, editora, família) que pisoteou no primo “doidão” e hoje não poderia cantar Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar), mas canta.