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Canário do samba

por Pedro Alexandre Sanches — publicado 31/01/2011 16h40, última modificação 04/02/2011 16h30
Caixa com inéditos revisita o último rebelde da MPB Tim Maia, responsável por unir o soul às raízes rítmicas do Brasil

Caixa com inéditos revisita o último rebelde da MPB Tim Maia, responsável por unir o soul às raízes rítmicas do Brasil

É um chavão, mas, morto há 12 anos, Tim Maia anda se revirando no túmulo ultimamente. Como acontece de tempos em tempos, a indústria do entretenimento volta a sapatear sobre o cadáver do sambista (sim, nosso maior soulman era um sambista) com quem viveu às turras quase ininterruptas enquanto ele viveu neste país tropical. Vivo, Tim Maia foi possivelmente o mais rebelde artista brasileiro de seu tempo, e um rebelde de fato, desobediente, não daqueles que pregam insurreição apenas para consumo externo, dos fãs. A voz do morto cura tudo, até mesmo inimizades históricas e desavenças homéricas.

De um lado, está a caixa Tim Universal Maia, que estabelece um trocadilho entre a mitológica fase religiosa do artista e o nome da gravadora detentora dos oito discos (mais um DVD ao vivo) inseridos no pacote. A homenagem exclui os dois volumes musicalmente abrasivos de Tim Maia Racional (1974-1975), porque à época o titã carioca havia quebrado a sala da diretoria da Philips (hoje Universal, mas não do Reino de Deus) e resolvera ser independente das multinacionais, antes que qualquer compatriota o fosse.

A gravadora presta tributo e repõe na praça trabalhos transcendentais do artista, como os LPs sem título de 1970, 1971, 1972, 1973, 1976 e 1980 e a obra-prima de romantismo “black” O Descobridor dos Sete Mares (1983). Mas sapateia para o mal aqui e ali, como numa das monumentais baladas desesperadas de Tim, Lamento (1972). A transcrição digital suprime misteriosamente o segundo e o terceiro versos da canção. Decidi/ viver agora/desde que pensei em mim/ quase tudo mudou é condensada, num passe de mágica, em decidi/ quase tudo mudou, como se “viver agora” e “pensar em mim” fossem categorias proibidas. Parece ato falho freudiano, mas a quem acredita que las brujas hay não custará muito supor que o sapateador, neste caso, é o fantasma do encrenqueiro mais fofo da história do Brasil, para azar do remasterizador descuidado.

*Confira este conteúdo na íntegra da edição 632, já nas bancas.