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Crônica

Caindo no esquecimento

por Redação Carta Capital — publicado 23/02/2012 09h02, última modificação 23/02/2012 09h02
Quem não se lembra das longas e intermináveis discussões em torno da pena de morte? Pensando bem, que bom que alguns assuntos caíram no esquecimento. Melhor assim.

*Por Alberto Villas

Discutíamos muito. Tudo. Tudo era motivo para discussão, elucubração como dizíamos. Feminismo, por exemplo. Quem lava, quem enxuga, quem varre, quem espana? Usar ou não usar sutiã, queimar ou não. Lá no princípio de tudo a discussão girava em torno da mulher trabalhar fora ou ser dona de casa. Muitos a favor, muitos contra. Enfim, uma grande discussão.

Discutíamos calorosamente se Deus existia. O papo às vezes começava em torno de uma macarronada de domingo e entrava tarde, noite adentro. Bastou o bestseller de Erich Von Däniken chegar à livraria Van Damme na Rua da Bahia em Belo Horizonte para começar uma grande discussão na cidade: Afinal, eram os deuses astronautas?
Tudo era motivo de discussão. Foi só Neil Armstrong colocar os pés na lua naquele 20 de julho de 1969 para começar uma outra discussão. Foi ou não foi? Lá no sertão de Minas Gerais não havia Cristo que fizesse Zé Barcelos acreditar que o homem tinha mesmo ido à lua. Para ele nunca foi, aquilo era um truque da modernidade, um cenário montado pelos americanos.

Outras crônicas de Alberto Villas:

E os objetos voadores não identificados, os tais OVNIS? Já vi discussão que acabou em briga. Onde já se viu ter vida em outro planeta? diziam uns. Enquanto outros esfregavam na cara dos céticos aqueles velhos exemplares da revista UFO com fotos intrigantes e assustadoras. Discos sobrevoando Nova York, Paris, Londres e legendas explicando que os homenzinhos tinham uma cor esverdeada já que as revistas eram em preto e branco.

Quando a discussão chegava em torno do existe ou não existe vida depois da morte, aí é que a coisa pegava fogo. Lembro-me que minha mãe acabou com uma dessas discussões numa noite de sábado com uma frase que nunca mais me saiu da cabeça.

- Vamos combinar assim: Se existe vida depois da morte, eu vou voltar pra contar.

Ela nunca voltou pra contar, mas a discussão ainda continuou durante muitos e muitos anos.

Discutíamos coisas menores. Cego sonha? Preto é cor? Guitarra ou violão? Rock and Roll ou MPB? Rolling Stones ou Beatles? Ângela Maria ou Emilinha? Chico ou Caetano? A discussão ia longe. Até mesmo crianças entravam na roda.

Afinal, o bom velhinho, o pobre coitado do Papai Noel existe?

O mundo mudou, mas os assuntos não caíram totalmente no esquecimento, não sumiram assim de repente na poeira da modernidade. Pensando bem, eles continuam no ar. Mas quem hoje em dia tem tempo ou saco para ficar discutindo a existência ou não de um objeto voador não identificado? Talvez meia dúzia de fanáticos, folheando velhos exemplares empoeirados da coleção da revista UFO.

A verdade é que esses assuntos saíram da pauta do dia. O papo hoje é outro. Ninguém quer mais saber quem lava, quem enxuga ou se você é Beatles ou Rolling Stones. Ou se a Terra é mesmo redonda, outro assunto que gerava horas e horas de grandes discussões.

A favor ou contra? Quem não se lembra das longas e intermináveis discussões em torno da pena de morte? Pensando bem, que bom que alguns assuntos caíram no esquecimento. Melhor assim.

Como nunca acompanhei novela, até hoje eu não sei o resultado de uma discussão que tomou conta do Brasil lá no final dos anos 1980. Se alguém souber que me diga, por favor: Quem matou Odete Roitman?

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