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Caetano

por Alexandre Freitas — publicado 18/07/2010 16h38, última modificação 28/07/2010 16h40
Ouvir da boca de um professor da faculdade de Música: “Caetano é genial, sou seu fã” era, no mínimo, instigante. Quase uma provocação

Pauxy Gentil Nunes, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, revelou seu apreço pela obra de Caetano Veloso. Faz mais de dez anos. Nesta época estudávamos como loucos nossos instrumentos na esperança de nos tornarmos concertistas e ingressar em um seleto grupo, cujo número de participantes se contava nos dedos. Nas aulas de Harmonia e Estética de Pauxy analisávamos desde canções medievais até peças dodecafônicas e música contemporânea. De popular, quase nada, como manda a tradição vigente. Ouvir da boca de um professor da faculdade de Música: “Caetano é genial, sou seu fã” era, no mínimo, instigante. Quase uma provocação. Ainda mais quando se sentia no ar um clima de conservatório europeu fora de lugar – ou décalé, diriam os franceses.

Mesmo instigado e predisposto a admirar o Caetano de Pauxy não me dei ao trabalho de descobri-lo. Não havia tempo. Era preciso estudar tal sonata de Beethoven, prelúdios e fugas de Bach, a sonatina de Bartók, o Ciclo Brasileiro de Villa-Lobos e mais outras tantas obras do gigantesco repertório para piano.

Há pouco tempo ouvi acidentalmente Nine of ten. “Isso é Caetano cara, do disco Transa”, disse meu amigo Paulo da Costa, escritor e músico. Só então que fui conhecer o cantor baiano. Atrasado, mas no meu ritmo. Na minha toada, diria meu avô mineiro. Comecei com o tal do Transa, o disco do exílio em Londres, lançado em 1972. Foi uma revelação. Parecia para mim uma tropicália assentada, onde um bocado de sotaques e temperos se harmonizavam, sem perder a heterogeneidade. Ora a música governa as palavras, ora as palavras guiam a música. Longe de ser “esteticamente mal resolvido” (Caetano usou esse termo falando do restaurante Nova Capela, no Rio), o disco ultrapassava o experimental e é, incontestavelmente, totalmente bem-sucedido em suas escolhas estéticas e sua forma.

“Aaai de mim! Aaai de mim! Míseros restos!”, os gemidos gregos que Antônio Abujamra tanto adora, se adéquam perfeitamente aos meus sentimentos quando penso que conheço tão pouco desse e de tantos outros artistas.

Fui ver o Caetano domingo passado na esplanada da Défense, em Paris. Além de seus óbvios hits, conhecia somente o CD “Transa”. É tudo. O show começou com as músicas do seu último disco: “Zii e Zie”, soube por lá. Depois ele alterna canções do “Cê” e umas poucas das antigas, como Força Estranha ou Desde que o Samba é Samba. Acompanhado de um jovem trio: Pedro Sá na guitarra, Marcelo Callado na bateria e um baixista com cara de adolescente Ricardo Dias Gomes, Caetano, mais do que a vontade no palco, se divertia nos oferecendo seus falsetes, suas melodias cíclicas, seus acentos musicais “fora” de lugar (e também suas dancinhas estranhas). Com a mesma naturalidade com que cantava suas canções mais convencionais, entoava com duas notas: “Pariu, cuspiu, expeliu um Deus, um bicho...” e os falsetes alternados do final da canção Perdeu.

Nem todos gostaram do que ele ofereceu. Muitos foram embora antes. Muitos queriam só os hits. Indagando amigos franceses e brasileiros, não consegui encontrar uma só opinião que coincidisse. Um achou que tinha muito pouca melodia. Outro que ele colocou uns rapazinhos de banda de garagem pra sobrar mais dinheiro pra ele. Uma francesa gostou de tudo, mas principalmente da canção Guantánamo, que eu achei super chata. E meu amigo Paulo, mal conseguia responder: “só de ver o Caetano já é um grande evento...”

Tirando uma ou outra canção, entre elas um axé que não sei o título, adorei o show e essa inquietude artística de Caetano. Essa maneira leve de transgredir. Agora só me falta conhecer as outras quatro dezenas de discos dele.

Aaai de mim! Aaai de mim!