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Revelação

Caderno de Quaderna

por Orlando Margarido — publicado 30/01/2011 11h57, última modificação 30/01/2011 11h57
O ator Irandhir Santos e sua evolução registrada do ofício. Por Orlando Margarido

Para Irandhir Santos, cada desafio de interpretação corresponde a um bloco de anotações que ele guarda cuidadosamente. Quando iniciado, o caderninho recebe todo o tipo de observação conveniente à construção do personagem e o acompanha durante todo o processo. Mas uma vez fechado, esse quase diário vai para a gaveta e lhe serve como corte definitivo entre criador e criatura. “Quando necessário, volto a este arquivo como um norte para meu trabalho e tenho o arco da minha trajetória”, diz o ator pernambucano de 32 anos.

É assim desde o primeiro contato com a obra, por exemplo, de Ariano Suassuna em grupos teatrais de Limoeiro, cidade do agreste onde sua família se estabeleceu, e do Recife, aonde Irandhir chegou com 15 anos. Experiência essa que mais tarde fundamentaria com um de seus protagonistas mais conhecidos, Quaderna, da adaptação para a tevê de A Pedra do Reino, realizada, em 2007, por Luiz Fernando Carvalho. O palco seria a vocação natural não fosse um diretor teatral impulsioná-lo para o primeiro teste de cinema. O conterrâneo Marcelo Gomes preparava o longa-metragem Cinema, Aspirinas e Urubus e o ator ganhou um papel definidor.

De 2005 para cá, se contabilizam 12 produções com desempenho marcante, do Maninho de Baixio das Bestas, de Cláudio de Assis, que lhe valeu o troféu de coadjuvante no Festival de Brasília, ao primeiro olhar do grande público em Tropa de Elite 2. Ele reconhece que a participação no filme de José Padilha foge ao universo mais autoral a que procura se filiar. “Mas acredito naquela figura e isso é essencial para aceitar um personagem.”

Foi devido a essa folha corrida que o ator ganhou homenagem da 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes, encerrada no sábado 29. O garoto que assistia a filmes populares dos Trapalhões, e pornochanchadas no Cine São José, de Limoeiro, não esconde agora a fascinação pela turbulência de um set de filmagens. “No início houve um estranhamento; como se concentrar em meio àquilo tudo?” Se o teatro propicia o tempo da maturação, no cinema não se tem mais do que dois meses para se interar.

Daí também o caderno que não o deixa ser tragado pela pressão do tempo. Nele define conceitos como o uso do corpo, habilidade que herdou do teatro, trunfo de seu talento aprovado por diretores.

“É impressionante como o Irandhir domina a pequena variação diante da câmera”, diz Kleber Mendonça, outro pernambucano que o dirigiu a pouco em O Som ao Redor.

A colaboração com conterrâneos, a exemplo de Assis – que o tem em seu novo longa, A Febre do Rato – e nordestinos em geral, como o cearense Karim Aïnouz (Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo) ou o baiano Sérgio Machado (Quincas Berro D’Água)  é uma preferência apenas pelo fato de quem gosta de voltar continuamente às raízes. Lamenta que uma delas, a teatral, ande longe. Mas quer retomá-la em breve em trabalho da Commedia Dell’Arte com o grupo de Tiche Vianna, diretora que o preparou para seu Quaderna.