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Bravura irônica

por Rosane Pavam publicado 12/01/2011 17h12, última modificação 13/01/2011 12h33
O fotógrafo Robert Capa narra com humor e sem melodrama suas aventuras durante a Segunda Guerra
Bravura irônica

O fotógrafo Robert Capa narra com humor e sem melodrama suas aventuras durante a Segunda Guerra. Na imagem acima, Capa fotografa soldados na praia de Omaha, na Normandia. Por Rosane Pavam. Foto: Robert Capa

O fotógrafo Robert Capa narra com humor e sem melodrama suas aventuras durante a Segunda Guerra

O que parecia impossível, um livro torna certo. Ligeiramente Fora de Foco, escrito e publicado nos Estados Unidos em 1947, é uma prova saborosa de talento literário de seu autor, o fotógrafo húngaro Robert Capa (1913-1954). No Brasil, ao lê-lo nesta edição pioneira da Cosac Naify, sabemos que escrevia de forma tão precisa quanto fotografava, apenas com mais ironia e sem as sombras de compaixão às vezes responsáveis por derrubar intenções jornalísticas. O fotógrafo, que enfrentou a guerra, escolheu o lado certo da história e clicou sem duvidar, lia o tempo todo. E ao escrever usava palavras que pareciam tiradas da língua sem travas de Sam Spade.

Era esse o protagonista de O Falcão Maltês, romance de Dashiell Hammett que Humphrey Bogart viveria no maior dos filmes noir, dirigido por John Huston em 1941. Spade denunciava à polícia uma criminosa por quem se apaixonara sem evitar este comentário: “Espero que não a pendurem pelo lindo pescoço”. Enquanto o fotógrafo relatava: “Escrevi que meu nome era Robert Capa; nascido em Budapeste; que o almirante Von Horthy e o governo húngaro nunca gostaram de mim e que eu nunca gostara deles também; que o consulado húngaro, desde a anexação da Hungria por Hitler, se recusava a dizer se eu era húngaro ou não; que enquanto Hitler dominasse a Hungria eu me recusava terminantemente a dizer que era húngaro; que eu havia sido criado por avós judeus de ambos os lados; e que eu odiava os nazistas e sentia que minhas fotos podiam ser úteis como propaganda contra eles. Fiquei um pouco preocupado com a ortografia quando devolvi o papel, mas ele selou e carimbou, pôs uma fita azul em volta e assim nascia um passaporte”.

Ao fazer literatura sem jamais se perder em descrições e lamentos, Capa também manifestava pressa em viver. E talvez tivesse sido esta a razão para jamais avançar na direção literária, seu objetivo de juventude. Escrever, quem sabe, pudesse lhe tirar o tempo necessário para presenciar os fatos. Ele parecia encarar os livros como necessários durante a calmaria. Correspondente de guerra, até mesmo os roubava. Certa vez, pôs no bolso uma obra assinada por Ellery Queen,­ aberta na casa onde gentilmente fora convidado a jantar. Leu Guerra e Paz, de Tolstoi, à espera de ação na Europa sob bombardeio. Antes de pular de paraquedas sobre a Alemanha, no final da Segunda Guerra Mundial, saboreou no helicóptero militar seis dezenas de páginas de um livro de mistério, sem dizer qual.

Ligeiramente Fora de Foco ironiza seus erros e inconstância. Na capa, está um instante que o fotógrafo registrou da tomada de território italiano por paraquedistas. A foto não era nada brilhante, ele afirma no livro, apenas o que se poderia fazer no momento de perigo. Ele não enche o peito ao dizer que a imagem registrava solitariamente o fato em todo o mundo, ademais com drama e perfeito enquadramento. Capa, aliás, jamais se perde em descrever seus feitos técnicos e artísticos. Nem mesmo se preocupa em ser estritamente verdadeiro. Diz o biógrafo Richard Whelan­ no prefácio: “Quando a verdade literal era importante, ele contava a verdade literal. Mas, quando só mesmo um chato pedante insistiria nela, Capa não via nenhuma razão de proibir alguns enfeites para tornar uma boa história ainda melhor – o que quer dizer mais divertida, geralmente à custa de si mesmo”.

Para o fotógrafo, ir à guerra em 1942 representara uma importante conquista depois de passar um bom tempo às moscas, quiçá literalmente, em Nova York. O passaporte de carimbo aliado lhe dera acesso aos combates a partir das trincheiras do Exército americano. Com os jovens soldados, sorveu litros de conhaque,­ dry martini, scotch e o que mais lhe chegasse, usualmente por escambo. Era entrosado no grupo, mas seu sotaque forte o deixara em apuros algumas vezes, já que, à noite, um companheiro americano poderia facilmente confundir sua voz com a de um inimigo. Habilidoso em várias línguas, contudo, Capa era capaz de enrolar um interlocutor contando-lhe casos. Morreu após pisar em uma mina na Indochina, mas, exceto o episódio fatal, teve sempre muita sorte.

Combateu na Guerra Civil Espanhola, onde, em foto célebre, registrou um legalista ao ser abatido. E cobriu os conflitos sino-japoneses antes de entrar na Segunda Guerra Mundial a convite da Collier’s. A revista desistiu dele no meio da empreitada, mas, adiante, contratou-o a Life, que o mandou à Normandia. Robert Capa foi o único fotógrafo a sair de um navio americano depois de um oficial chutar seu traseiro, rumo a registrar o Dia D, em 6 de junho de 1944. Fez 106 cliques, mas, em Londres, um  laboratorista descuidado derreteu seus negativos, deixando que a história conhecesse apenas oito imagens do evento, em parte tremidas.

Capa nunca se vangloria de uma conquista nesse relato, exceto romântica. Ligeiramente Fora de Foco também se parece com uma história de amor. O objeto de sua paixão, entre tantas donzelas, era, no momento da narrativa, Elaine Justin, que no livro ele intitula Pinky. O livro começa e termina com a frase “Não havia mais absolutamente nenhuma razão para levantar de manhã”. No início, a ausência aparente de motivos para viver devia-se à escassez de dinheiro e de trabalho na América. No fim do livro, ao usar a frase, ele se refere a ter perdido Pinky para o amigo Chuck Romine (no livro, Chris Scott). O relato culpa a si próprio pelo fim da história, estranha deixa para se vangloriar. Ele a largou sozinha quando não deveria.

Terminado o livro, e sedutor, como sugere o biógrafo Whelan, Capa se envolve com a atriz Ingrid Bergman, que fora entreter a Europa arrasada. Por conta de seu relacionamento, ele é convidado a registrar os bastidores do filme Interlúdio, de Alfred Hitchcock, que ela protagoniza. Ao fim do filme, o fotógrafo procura trabalho, mas alega que Hollywood não lhe dará o valor devido por seu empenho. Pelo menos, é isso o que diz à atriz para não se casar com ela. Hitchcock explora o caso em Janela Indiscreta, com James Stewart a citá-lo em seu papel, e Grace Kelly, a Ingrid. O filme, contudo, tem final romântico e feliz para a mulher.

No funeral de Capa, em 1954, o escritor John Steinbeck disse ser a pessoa que mais o amava neste mundo. É muito provável, embora em Um Diário Russo, que traz seu texto jornalístico junto às fotos do amigo, o sentimento se submetesse à dúvida. Nesse livro, que a Cosac Naify também lança agora, Steinbeck ironiza tudo no fotógrafo, do modo de acordar pela manhã à mania de surrupiar os livros dos outros. Capa se intromete no relato para retrucar suas afirmações, em duas páginas divertidas nas quais vê o escritor como preguiçoso, ademais aborrecido.

A experiência russa vivida por alguns meses em 1947 os fez entender que o povo daquele lugar, até então fechado ao mundo, poderia ser amável, mas não estava metido em uma revolução de costumes, como eles talvez tivessem imaginado a partir dos Estados Unidos. Os russos se viam levados a deificar o líder Josef Stalin e, pecado maior, fechavam a cara para os equipamentos do fotógrafo, cuidadosamente carregados por toda a sede do império comunista em dez malas pesadas.

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