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Análise

Veneza e o tom ligeiro

por Orlando Margarido — publicado 01/09/2016 15h13
A 73ª edição do festival italiano começa com a exibição de "La La Land"
Dale Robinette / Divulgação
Ryan Gosling e Emma Stone

Ryan Gosling e Emma Stone em 'La La Land'

É uma tradição. O Festival de Veneza inaugura suas edições com um filme inédito de tom ligeiro, digamos assim, uma comédia ou outro registro que tenha apelo de público e mídia. De preferência, com estrelas, e La La Land atende as duas atribuições. Na noite de quarta-feira 31, abriu oficialmente a 73ª edição, mas o filme foi mostrado pela manhã para a imprensa.

Tem um tanto da comédia romântica, mas na linha mais elaborada de Woody Allen, e não por acaso a trama lembra Café Society. Mas sobretudo é um musical, ainda que não aquele que a todo momento os atores interrompem a cena para cantar. A homenagem a Hollywood dos musicais, dos clássicos como Casablanca ou Juventude Transviada. E o par central, Emma Stone e Ryan Gosling, esbanja carisma. Formam um belo casal. Um começo de competição para cima, otimista, pode-se dizer.

Talvez para compensar a visão de uma Itália em pedaços durante a Segunda Guerra Mundial. É o que traz Tutti a Casa, ou todos para casa em tradução literal, realizado por Luigi Comencini em 1960. Este sim um clássico da comédia italiana, mas com a ressalva de que não se trata de filme para a risada correr solta. Há humor, claro, mas elaborado, inteligente, crítico e com o amargor habitual conduzido por Alberto Sordi em cena. É outra das recorrências da programação de abertura.

Relembra-se um grande realizador italiano por algum motivo, e Comencini faria 100 anos, pelo restauro e relançamento de um filme. No caso, havia novidade a mais que o próprio público italiano desconhecia. À época do lançamento foram cortados seis minutos. Comencini costumava se dizer ressentido com o corte porque seriam passagens esclarecedoras do momento e da situação em que vivia a população. Agora na cópia nova o material foi reintegrado.

O período em questão, na verdade, é breve e diz respeito aos dias antecedentes ao 8 de setembro de 1943, data do armistício. Nesse tempo, o tenente interpretado por Sordi tentará, como os soldados que ele lidera, voltar para as respectivas famílias. São desertores, mas de quê e de quem? Com o armistício, os homens que defendiam o rei e os camisas pretas de Mussolini são deixados à própria sorte.

O personagem de Sordi não compreende o contexto e faz a síntese dessa confusão para perguntar ao superior o que fazer. “Aconteceu uma coisa incrível, os alemães se aliaram aos americanos!”, diz ele, numa das cenas mais cômicas do filme. Na apresentação, uma de suas filhas, a também diretora Francesca Comencin, comentou que a intenção de seu pai foi representar essa condição do povo como relegado, sem opções para a sobrevivência.

“Para ele também foi importante porque o trazia de volta a um país, a uma terra que ele teve de deixar muito cedo quando a família se mudou para a França”, complementou. “É um filme de formação, de reencontro e de maturidade”. A linguagem de road movie – pois Sordi e seus companheiros põem o pé na estrada a bordo de caminhões, carros e trens para poder voltar para casa – como foi lembrado por estudiosos, lembra Paisà, de Rosselini. Mas com Sordi nada é tão dramático e tão cômico e esse equilíbrio é o que faz a diferença.

Se em Comencini temos um painel sintético do momento de um país, de La La Land não se pode querer tanto. No máximo, um mosaico de grandes filmes do período de ouro do musical, inclusive não americano, e ao lado de Gigi, influencia assumida pelo diretor Damien Chazelle (Whiplash), também se relembra o francês Os Guarda Chuvas do Amor. A trama centrada em dois jovens em busca do ouro que é ser reconhecido em Los Angeles, ela como atriz, ele como músico de jazz, não deixa de ser recorrente e mesmo extemporânea.

Como, aliás, é parte da ambientação do filme, ligada a um passado mais glamuroso. Pode-se alegar que é um filme com olhos no passado, mas não passadista, pois sempre haverá público presente para projetos leves e bem realizados como este. A partir de agora, a competição deve prosseguir com filmes mais exigente. Cacife há. Wim Wenders, Denis Villeneuve, François Ozon, Armat Escalante, Terrence Malik e Pablo Larrain estão entre os competidores. Veneza começa.

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