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Três olhares visionários em retomada nos palcos

por Alvaro Machado — publicado 07/03/2016 18h20, última modificação 08/03/2016 11h28
Peças baseadas em Glauber Rocha, Copi e Josué de Castro voltam aos palcos em São Paulo
Marcos Villas Boas / Divulgação
A geladeira

Escrito pelo dramaturgo argentino Copi, monólogo 'A Geladeira' volta aos palcos em SP

Três retomadas de temporadas teatrais de sucesso levam o espectador ao encontro de autores visionários da América Latina no século XX, do olhar convulsionado do baiano Glauber Rocha – na adaptação de seu filme Terra em Transe pela cia. Bará – à lama nutritiva dos mangues de Rio de Janeiro e do Recife no retrato pungente do pernambucano Josué de Castro – Caranguejo Overdrive em turnê nacional –, e daí às nostalgias de Buenos Aires pelo genial cartunista Copi em seu exílio parisiense, no monólogo A Geladeira.

A geladeira. Direção: Nelson Baskerville. Teatro Pequeno Ato (SP). R. Teodoro Baima, 78. Quintas e sextas-feiras às 21yh. Até 9 de abril.

A obra do argentino Copi (1939-87) é afinal oferecida à fruição do público brasileiro com o monólogo A Geladeira. O dramaturgo e cartunista exilou-se na França em 1962, ano de um dos seis golpes militares no país no decorrer do século XX. Em Paris, Copi encaixou-se na moldura do Teatro do Pânico, criado pelo trio Fernando Arrabal (espanhol), Roland Topor (francês) e Alejandro Jodorowsky (chileno).

Pouco antes de falecer, aos 48 anos, o autor vislumbrou nessa peça a efeméride de seu próprio cinquentenário, que sabia não poder atingir por ser portador do vírus da Aids em época sem medicamentos, uma das razões de ter-se tornado também ativista pioneiro dos direitos LGBT. 

O alter ego imaginado por Copi imita performances inseridas no cotidiano da capital francesa, pois o argentino travestia-se para assemelhar-se à própria mãe, apelidada China Botana – uma descendente do libertador Simon Bolívar. No palco, o personagem interage, ainda, com uma psiquiatra, com a “mordoma” Gana e com um rato falante que o visita à noite, todos à luz que brota do interior do eletrodoméstico do título, presente materno para os cinquenta anos, e que ganha, assim, certa aura metafísica. 

O ator Fernando Fecchio, 34 anos, a interpretar todos os tipos com trocas de figurinos e de entonações dignas de Irma Vap, nunca é menos que irresistível e hilariante em cada um dos 60 minutos da função. Com A Geladeira, o diretor Nelson Baskerville (do sucesso Luís Antonio-Gabriela) reafirma seu interesse pelo tema da transexualidade, além de um estilo muito reconhecível nos cenários de sabor kitsch e camp, também de sua lavra.

Terra em Transe
As convulsões políticas brasileiras no século passado ganharam catarse artística exemplar com Terra em Transe

Terra em Transe. Direção: Diego Gonzales. Funarte São Paulo, sala Arquimedes Ribeiro. Sábados e domingos às 18h, até 4 de junho.

As convulsões políticas a sacudir quase sem trégua o País no século passado ganharam catarse artística exemplar com Terra em Transe. Em 1967, o filme surgiu como clímax do cinema de Glauber Rocha, a desafiar a ditadura vigente e a vomitar um longo histórico nacional de exploração colonialista. A estética do diretor baiano, que jamais escondeu dívida ao ritual teatral, mandava à frente das câmeras personalidades de palco como Paulo Autran, Jardel Filho e Glauce Rocha. 

Tributários das encenações com as quais a partir dos anos 1970 o Teatro Oficina se aproximou do olhar visionário de Glauber e de sua estética antropofágica, os oito integrantes da Cia. Bará se valem de dinâmicas de Zé Celso Martinez Corrêa para 120 minutos de exorcismos políticos, não apenas de arraigados populismos predatórios, mas dos novos fantasmas institucionais a assombrar gerações recentes.

Nessa El Dorado do Terceiro Milênio, o senador Porfírio Diaz criado por Autran é atualizado em máscara estertorante por Irun Gandolfo, enquanto o poeta idealista e cooptado Paulo Martins, originalmente criação de Jardel Filho, rejuvenesce com o ator Ruan Azevedo.

Caranguejo Overdrive
'Caranguejo Overdrive' parte dos escritos do geógrafo pernambucano Josué de Castro (1908-1973), pioneiro no ativismo de combate à fome no País

Caranguejo Overdrive. Direção: Marco André Nunes. Sesc Pinheiros (SP), até 10 mar. Festival de Teatro de Curitiba, 29 e 30 mar.

O mangue beat de Chico Science ganhou derivação carioca. Estreado em 2015 e hoje em turnê pelo País, o musical da Aquela Cia. tem força rocker nos vocais de Alex Nader, com banda de três músicos, enquanto a dramaturgia de Pedro Kosovski une as pontas dos mangues do Rio de Janeiro (extinto no saneamento do séc. XIX) e do Recife, com seus ainda ativos catadores de caranguejos.

Partiu-se do livro Homens e caranguejos, de 1967, do médico, geógrafo e escritor pernambucano Josué de Castro (1908-1973), pioneiro no ativismo de combate à fome no País e cujos direitos políticos foram cassados já em 1964. 

Após crise psicótica e baixa do Exército, na malfadada Guerra do Paraguai, o personagem Cosme chega ao Rio de Janeiro em convulsão urbanística, a gerar o diálogo espinha dorsal da montagem, no qual uma prostituta paraguaia (a atriz colombiana Carolina Virguez em tour de force) lhe reconta a história do Brasil, de Caxias à atual tentativa de impeachment. Performances com lama e caranguejo também são recurso para o resultado de alta empatia com público jovem informado.