Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Bravo! / Tratado do todo

Cultura

Cinema

Tratado do todo

por Orlando Margarido — publicado 04/03/2016 05h08
A natureza hostil em "O Cavalo de Turim" e o diário do artista José Leonilson em "Paixão de JL"
Claudio Cretti
O-Cavalo-de-Turim

Difícil coligir todos os significados que sustentam a obra-prima O Cavalo de Turim, tanto mais porque o filme do húngaro Béla Tarr parece tratar de muito pouco. Na narrativa mais ampla, e dramaticidade e tempo são elementos fundamentais no cinema do diretor, pai e filha vivem isolados num casebre no campo assolado por frio e vento violentos. A jovem, se não está em constantes cuidados na casa, com dedicação ao velho cocheiro, enfrenta com este a natureza hostil tentando domar e fazer trabalhar o cavalo atrelado à carroça que lhes dá o sustento. O animal é a chave de compreensão sobre o que mobilizou Tarr neste quase ensaio visual de 150 minutos.

Tem a ver com Friedrich Nietzsche e a situação que o levou à perda da sanidade mental, quando em 1889 testemunhou o dono de um cavalo a espancá-lo. Decidiu intervir e se abraçou ao animal. Há tratados sobre a passagem, mas o cineasta foi em busca de uma interpretação ao que se deu com o cocheiro e o cavalo.

As sugestões de um mundo irracional a ponto de sucumbir estão nos movimentos repetitivos dos moradores e na chegada de um visitante que anuncia o apocalipse. Em  tom solene e opressivo há contornos inesquecíveis de como o cinema precisa de muito pouco para dar conta do todo.

 O Cavalo de Turim. Béla Tárr

 

Tecidos da memória

São a memória e a expectativa de uma vocação frustrada as orientadoras de A Paixão de JL, documentário de Carlos Nader. A primeira relaciona-se ao protagonista, o artista plástico cearense José Leonilson. Além de amigo, o diretor sintonizava o interesse pelo ofício daquele que foi um talento muito particular da arte contemporânea. Nader pensava em dedicar-se às artes plásticas, mas acabou por se encontrar no cinema, registro no qual não por acaso costuma contemplar o meio. O filme une assim as duas condições e revela um raro material de arquivo pessoal.

 

Pouco antes de morrer de Aids, em 1993, Leonilson passou a gravar seu cotidiano e reflexões sobre a doença e o trabalho, fala em que se estrutura o filme. Nesse diário em voz alta, comenta as transformações de seu corpo e como a Aids impacta sua obra, mescla de pintura, escultura e desenho. O uso das várias linguagens é mais interessante agora que se soma outro modo de expressão àquela da escrita sobre tecido, com frases significativas de seu pensamento. 

A Paixão de JL. Carlos Nader