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Teatro

Tablado de Arruar fecha trilogia com 'Abnegação 3'

por Alvaro Machado — publicado 14/07/2016 02h54
A rejeição ao jogo político em peça de Dal Farra, dissolução familiar em Inútil a Chuva e o universo barroco e mexicano em Rainhas do Orinoco
Araquem Alcantara
Abnegação

O país da inclusão pela via do consumo, do pacto social frágil em torno de políticas sociais e da economia

meio teatral paulistano polariza-se politicamente. Durante os agradecimentos ou na própria dramaturgia, uma grande maioria manifesta repulsa à legitimidade da presidência interina. De outro lado, uma minoria hostiliza as esquerdas em redes sociais.

Por fim, uma parcela reduzida, embora expressiva em termos de potencial artístico, rejeita o atual jogo político como um todo. Entre os últimos, destaca-se o grupo Tablado de Arruar, formado há 15 anos, cujo diretor e dramaturgo Alexandre Dal Farra, 35 anos, vem sendo reconhecido com prêmios pela qualidade de sua escrita, a incluir colaborações com Teatro da Vertigem (O Filho, inspirado em Kafka) e Grupo XIX (Teorema, baseado em Pasolini). 

Seu Abnegação 3 fecha trilogia iniciada há dois anos sobre “o país da inclusão pela via do consumo, do pacto social frágil em torno de políticas sociais e da economia que faz vistas grossas ao crescente enriquecimento dos ricos”. No texto anterior focalizou-se o crime hediondo cometido por máfia de propinas contra um prefeito iludido quanto ao alcance de seu poder. A violência expressionista na teatralização desse episódio cede agora o passo a políticos mais reflexivos, que se autoanalisam diante de aspectos do cotidiano e da vida privada, no mês de dezembro de 2014, pós-eleições. 

Abnegação 3 – RestosClayton Mariano e Alexandre Dal Farra. Teatro Sesc Ipiranga (SP), até 17 de julho

 

Núcleo implodido

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A ambição dramatúrgica é tamanha que acaba por suscitar admiração (Foto: João Caldas)

Uma rara dramaturgia de acento carioca ressurge em Inútil a Chuva (foto), texto que o diretor Paulo de Moraes assina com o filho Jopa Moraes para a Armazém Cia., criada há 25 anos em Londrina (PR) e estabelecida no Rio de Janeiro em 1998. Como na montagem anterior do grupo, O Dia em Que Sam Morreu, passada em um grande hospital, temos a sensação de contemplar ambientes estrangeiros. Desta vez, uma casa de campo à beira de um lago que bem poderia ser inglês.

Inútil a Chuva. Paulo de Moraes. Sesc Bom Retiro (SP), até 3 de julho

Uma família é lançada à deriva pelo provável suicídio do pai, pintor abstracionista, no auge da trajetória. As interpretações permanecem aquém do desenho de uma alta classe média. Contudo, a par de lances cenográficos de certo impacto e beleza (Paulo de Moraes e Carla Berri), a ambição dramatúrgica é tamanha que acaba por suscitar admiração. Navega-se, aqui, pela desilusão do diálogo geracional de A Gaivota, de Tchekhov, ou por dissolução familiar detonada por elemento-surpresa, como em Teorema, de Pasolini. 

 

Barroco mineiro-mexicano

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Rainhas do Orinoco e o reprocessamento de linguagens de circo-teatro (Foto: Arlindo Bezerra)

A América Latina retratada em suas contradições sociais numa viagem de barco de duas vedetes-prostitutas até um campo de petróleo na foz do Rio Orinoco, Venezuela. Réquiem para um naufrágio continental, o texto é do mexicano Emilio Carballido (1925-2008), autor de mais de 200 romances, peças e roteiros, agraciado em 1962 com o Prêmio Casa de las Américas.

Rainhas do Orinoco. Gabriel Vilela, Teatro Vivo (SP), até 3 de julho

A peça permite ao diretor Gabriel Villela unir o universo barroco dos reisados, congadas e bumbas da Minas Gerais natal à tradicional festa com que os mexicanos celebram os mortos. Com Rainhas do Orinoco (foto), Villela também retorna às raízes musicais, no reprocessamento de linguagens de circo-teatro, aliadas a exuberantes figurinos alegóricos (de sua autoria). No entrecho, a experiente e cética Mima, vivida pela veterana Walderez de Barros, promove jogos farsescos com a jovem Fifi (Luciana Carnieli), em canções sobre o veio caipira, de autoria de Dagoberto Feliz, com Babaya. 

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