Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Bravo! / Sob o governo do sangue

Cultura

Espetáculo

Sob o governo do sangue

por Alvaro Machado — publicado 06/10/2016 03h47, última modificação 06/10/2016 08h42
O Theatro Municipal de São Paulo põe à prova sua capacidade de autogerenciamento
Divulgação
Elektra

"Elektra" é uma ópera em um único ato, sem intervalos

Das mais breves em duração do repertório lírico, 110 minutos em um ato, a Elektra que Richard Strauss fez estrear em 1909 apresenta, em consequência, punch cênico-musical certeiro como golpe de sabre, assim como Salomé (1905), do mesmo compositor.

Ambas vieram à luz na mesma Hofoper de Dresden, a cidade arrasada pelos bombardeios suportados pela Alemanha ao fim do Terceiro Reich, cujos ídolos musicais eram, justamente, os dois Richard, Wagner e Strauss, este com alta função de direção artística oferecida por Joseph Goebbels.

A música de orquestração luxuriante imaginada para essas mulheres envoltas em neurose, vingança e destruição, e seus dramas, ambos pela pena do poeta Hugo von Hofmannsthal, ganharam, porém, novo fôlego nas grandes casas de ópera, neste milênio.

Após escândalo de desvio de verbas que culminou com a demissão do maestro John Neschling, há um mês, os corpos estáveis do Municipal de São Paulo põem à prova sua capacidade de autogerenciamento com a tragédia da princesa que vinga-se da morte de seu pai, Agamenon, a atingir para tanto sua mãe Clitemnestra, sacrilégio interpretado por Eurípedes como epitáfio da era dos deuses no século V a.C.

Porém, na primeira montagem lírica inédita deste ano no TMSP, esse enredo foi atualizado pela diretora cênica Lívia Sabag para os tempos atuais, a sublinhar o tema de uma família emocionalmente destruída por injunções políticas. Para tanto, Sabag inspirou-se em filmes de Ingmar Bergman e Lars von Trier.

Na obra, musicalmente de difícil execução, cooperam a Sinfônica e o Coral Lírico Municipal, sob as regências de Eduardo Strausser e Bruno Facio. Caetano Vilela assina o desenho de luz, de efeito importante ante o orçamento periclitante da casa, que todavia encomendou cenário ao argentino Nicolás Boni.

Este situou o Palácio de Micenas, de 25 séculos passados, em uma sombria mansão burguesa, modo de sublinhar a angústia existencial que dá o tom à montagem. No elenco principal, da estreia e dos dias 13, 16 e 20, a mezzo-soprano austríaca Natasha Petrinsky (Clitemnestra) e a soprano britânica Catherine Foster (Elektra).

Elektra. Theatro Municipal de São Paulo. Sete récitas, de 9 a 20 out. 

registrado em: