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Salpicos de humor sardônico

por Tárik de Souza — publicado 03/05/2016 04h25
A bordo de teclados, Donato esculpe seus arabescos, contraponteado por sopros e percussão de sotaques variados
Divulgação
Donato, pianista

O pianista João Donato.

Um dos pais da insurreição acústica da bossa nova, o pianista e compositor João Donato, em 1970, morava nos EUA e foi desafiado pela gravadora Blue Thumb a um aggiornamento com os teclados eletrônicos em voga. “Compre os instrumentos que você quiser e leve para casa”, recomendaram, conta ele no encarte da reedição de A Bad Donato, um ponto fora da curva em sua discografia quase sempre desplugada.

Quarenta e seis anos depois, com o filho Donatinho imerso nas programações e samples (Zambê), ele reconecta os fios de sua caligrafia de melodista harmônico com a nova era tecnológica. Se a primeira imersão era pontuada pelo funk agulhado e tenso de James Brown, Donato Elétrico rescende aos sopros gingantes e remansosos do afrobeat do nigeriano Fela Kuti.

No disco americano, Donato aliou-se a jazzistas como Bud Shank, Ernie Watts, Pete Candoli, Jimmy Cleveland, além do brasileiro Eumir Deodato, com quem dispararia outro bólido conectado, o seguinte Donato/Deodato

Donato Elétrico. João Donato. Selo Sesc


CDDonato.jpg
Albúm Donato Elétrico

Agora, recorre a músicos do grupo Bixiga 70 e acompanhantes de cantoras como Tulipa Ruiz, Céu e Anelis Assumpção, além de luminares locais como o maestro Laércio de Freitas, artesão das cordas da requebrante Frequência de Onda. A bordo de teclados como Farfisa, Fender Rhodes, Moog e Clavinet, Donato esculpe seus arabescos, contraponteado por sopros e percussão de sotaques variados.

Como o pulso cubano de Combustão Espontânea, o encaixe nordestino de Xaxado de Hércules e os assovios digitais embutidos nos sopros espraiados de Urbano. Autor do emblemático A Rã (no original The Frog), replica com a letárgica Tartaruga, imersa em loops e wah-wahs, seguida pelas oníricas digressões da Soneca do Marreco. São salpicos de seu humor sardônico numa seara, a instrumental, quase sempre condenada à empertigada sisudez.

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