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Os órfãos da grande praça

por Alvaro Machado — publicado 23/03/2016 04h38
Pessoas Sublimes, continuidade de Pessoas Perfeitas, dos Satyros, está em cartaz até 17 de abril
Andre Stefano
Pessoas-sublimes

Cena de Pessoas Sublimes

Há 15 anos, as colaborações entre o diretor Rodolfo García Vázquez e o ator e dramaturgo Ivam Cabral são como âncora para milhares de jovens aos fins de semana, a libar e socializar a céu aberto, o “povo da praça Roosevelt”. Não fosse a cia. nomeada Os Satyros.

A pequena caixa cênica de sua sede, de paredes nuas, traduz fidelidade a certo espírito marginal, mas adquiriu-se notável habilidade para maximizar, nesse cubo, a ilusão teatral, com artifícios cênicos e de luz.

Revelam-se também burilados, em sua nova criação, texto e elenco. Pessoas Sublimes é consequência da anterior Pessoas Perfeitas. A graça mais espontânea desta cedeu passo às tintas de sonho de uma comunhão social logo convertida, porém, em pesadelo.

Em idílico condomínio com “águas brotando nas calçadas”, inspirado na região paulistana de Parelheiros, seguimos a coquete Doresdei (Bel Friósi) até tornar-se vítima de assassinato às margens de represa. A narrativa caleidoscópica expõe convivência a princípio pacífica de muitos credos e preferências, em maquiagens e roupas de circo barroco.

A personagem Delírio, demiurga de idade indefinível vivida pela emblemática Helena Ignez, conduz sutilmente as 13 figuras da trama à sua real condição de espectros, projetos de vida esmagados, a culminar em dolorido sentimento de orfandade espiritual. Fernanda D’Umbra personifica sem arestas o espírito de atuação da cia. como Sonata, atriz atingida por doença de memória, a cotidiana ameaça da profissão.

Pessoas Sublimes. Espaço Satyros, em São Paulo, até 17 de abril

Como os demais, ela se move em moldura onírica sugestiva do teatro de estações de August Strindberg em sua derradeira fase, cujo protagonismo é paradoxalmente de mortos – entre deuses, espíritos, entidades e almas –, e não de personagens propriamente vivos.

A registrar, finalmente, que a atriz Phedra D. Córdoba, transgênero cubana de expressão ladina e diva do grupo, deixou a montagem logo após a estreia por enfermidade grave, e desse modo o grupo foi obrigado a fazer não uma substituição de elenco, mas reformulação na dramaturgia.

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