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Ódio cordial

por Álvaro Machado — publicado 09/06/2016 04h24
Com técnicas brechtianas, a tragédia do senso comum e da falta de crítica
Victor Iemini
Inimigos do povo

Um ápice do drama burguês reformatado

A Cia. da Revista inventa um novo musical em chave político-social. Assim como Urinal, em cartaz por outro grupo, Um, Dez, Cem Mil aborda problemas em torno do elemento água.

Dele dependem os moradores de estação balneária norueguesa para girar sua economia. A reconhecível trama vem de Um Inimigo do Povo, clássico de Henrik Ibsen. 

Esse ápice do drama burguês moderno é reformatado com técnicas do teatro brechtiano. Os personagens se apresentam, analisam a própria condição dramática e alternam falas com canções que sublinham contradições, de autoria de Ricardo Severo.

Mais que águas minerais contaminadas, o flagelo do senso comum e da ausência de crítica a dominar as relações sociais é apontado pela companhia como veneno do espírito.

O olhar não crítico é interpretado como faceta da “cordialidade brasileira” (Sérgio Buarque de Holanda), que coloca o coração à frente da razão e pode facilmente converter-se no oposto do ódio fascista, segundo a trupe.

Um, dez, cem mil inimigos do povo. Kleber Montanheiro. Cia. da Revista, São Paulo. Até 28 de agosto

Recursos circenses ampliam o pequeno tablado da sede da companhia, mas ressente-se em geral de comunicação mais efetiva com o público, o “milagre” contagiante perseguido não só por Brecht, mas pela arte teatral em sua totalidade.

Desconforto metafísico

Floema
(Foto: Leekyung Kim)

Floema. Viga Espaço Cênico, São Paulo. De segunda a quarta, até 5 de julho

O diretor e ator Donizeti Mazonas segue vereda muito produtiva de adaptações dos textos de Hilda Hilst (1930-2004), especialmente os de caráter vizinho à especulação metafísica, como em sua versão teatral para Osmo (2015).

Em Floema, ocupa-se da encenação e deixa interpretações a cargo de uma dupla afinada com suas propostas. Flávia Couto dá voz às indagações que o homem Koyo lança à divindade Haydum, em atuação de Maurício Coronado. Este responde ao desconforto filosófico e teológico do primeiro com saraivada de perplexidades.

A densidade dos diálogos constitui espécie de prova para a maior parte dos espectadores. Se apenas 20% do conteúdo for assimilado, o espetáculo terá alcançado seu objetivo, tamanha a complexidade da escrita hilstiana nos anos 1970.

À compreensão do texto por Flávia e Maurício, alicerçada ainda em linguagens corporais, soma-se a expressiva cenografia de Suiá Burger Ferlauto, bem como a acertada música original, do maestro Gregory Slivar.

Poesia cirúrgica

Poesia cirúrgica
(Foto: João Caldas)

As Ondas ou uma Autópsia. Gabriel Miziara. Viga Espaço Cênico, São Paulo. De sexta a domingo, até 7 de agosto

Ao acumular funções de dramaturgo e diretor, o ator Gabriel Miziara debruça-se sobre o romance As Ondas, escrito em 1931 por Virginia Woolf, que se suicidou com pedras colocadas em seus bolsos antes de mergulho definitivo em um rio.

Escrito como “fluxo de consciência”, o livro é, a seu modo, um rio a abrir flancos generosos para jogos de interpretação dramática. 

Miziara, especialmente lembrado pelo multipremiado monólogo Loucura (2001), inicia neste espetáculo trilogia sobre a obra da escritora inglesa, a prosseguir com Momentos da Vida, a partir dessa obra autobiográfica, e Virginia, criação inédita.  As Ondas descreve, no espaço de um dia, diversas fases das vidas de seis amigos.

O intérprete encontrou equilíbrio entre força e sutileza e transmite a poesia do mais filigranado universo interior. Vestido por Fause Haten, responde pela cenografia, a alcançar transcendência com dois elementos, mesa cirúrgica e projeções sobre jatos d’água.