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Cem anos depois de aposentado, o oficleide reaparece

por Tárik de Souza — publicado 28/06/2016 01h34
Instrumento ressurge soprado pelo fluminense Everson Moraes, de 29 anos, formado no trombone e bombardino
Silvana Marques
Everson-Moraes

Everson Moraes (de vermelho) e seu grupo empreendem viagem musical ao tempo de Pixinguinha e outros grandes

Inventado na França, em 1817, pelo luthier Jean Hilaire Asté, para um concurso musical promovido pelo rei Luís XVIII, o oficleide empolgou eruditos da época. Berlioz, Wagner, Verdi, Rossini e Mendelssohn escreveram especialmente para o instrumento de sopro, antecessor da família dos saxofones, desembarcado no Brasil por volta de 1850, a bordo das primeiras bandas de música. Com sua sonoridade grave foi acolhido na baixaria dos grupos de choro inaugurais, no contraponto harmônico aos cavaquinhos e violões. 

Na passagem do século XX, pontificavam oficleidistas, como Irineu de Almeida (1863-1914), o Irineu Batina, mestre de Pixinguinha, responsável por sua estreia em disco, aos 14 anos. Com a morte de Irineu, o instrumento foi aposentado, mas reaparece, após um século, soprado pelo fluminense Everson Moraes, de 29 anos, formado no trombone e bombardino, num CD no qual revisita a obra do precursor.

Após encontrar um avariado oficleide numa fazenda de café em Atibaia, interior paulista, Everson começou a estudá-lo, além de importar da França dois outros raros exemplares. Um deles, no registro em dó, abre o cortejo, no tango brasileiro São João Debaixo d’Água, a saltitante composição de Irineu que lançou Pixinguinha como flautista, no grupo Choro Carioca, em 1911.

O irmão de Everson, Aquiles Moraes, trocou o habitual trompete pelo cornet para aclimatar-se à época, como no marcial schottisch Lembranças, em que evoca toques de clarim. Completam o grupo central, flauta (Leonardo Miranda), cavaquinho (Lucas Oliveira) e pandeiro (Marcus Thadeu), com eventuais convidados como Paulo Aragão e Mauricio Carrilho (violões de 7 cordas). Clarinete (Beatriz Stutz) e tuba (Thiago Osório) pontuam tanto a inédita valsa Despedida quanto a marcha Arthur Azevedo, ambas em clima de coreto, propício a evoluções da Banda do Corpo de Bombeiros, integrada por Irineu. 

Raro registro de oficleide-solo, na gravação original do autor, de 1910, a polca Qualquer Cousa reaparece em outra faixa como choro, crivada de contrapontos como os da dupla formada nos anos 40 pelo discípulo Pixinguinha, já no sax, e o flautista Benedito Lacerda. Seccionado pelo coro do refrão-título, o tango brasileiro Aí Morcego injeta diversão nesta memorável aventura arqueológica.

Irineu de Almeida e o Oficleide 100 Anos Depois. Everson Moraes. Biscoito Fino