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Matheus Nachtergaele, atleta afetivo à maneira de Antonin Artaud

por Alvaro Machado — publicado 20/04/2016 13h26, última modificação 28/04/2016 17h07
Por quais caminhos o ator atingiu a condição do chamado “monstro de palco”?
Divulgação
Matheus Nachtergaele

Entre regozijos e tropeços, ele conduz a si e à plateia rumo à compreensão do mistério de uma vida

É possível que a concentração de ator exigida pelas câmeras dos mais de trinta filmes em que atuou desde 1997 tenha ensinado ao paulistano Matheus Nachtergaele algo da arte de catalisar a atenção das plateias desde o palco de teatro, ao qual retorna após hiato de treze anos, porém com a força de mil demônios.

O árduo trabalho à frente das lentes cinematográficas parece agora acumulado, de modo a exercer inexplicável influência sobre cada uma dentre as milhares de pessoas reunidas em apresentações no imenso Teatro da Reitoria, no Festival de Teatro de Curitiba, em março último.

Nesse palco italiano convencional ou no atual intimismo do Espaço de Convivência do Sesc Pompeia, de apenas 50 lugares, bastam porém ao ator as pontas de seus dedos para despertar vagas emocionais e conduzir as consciências, atadas a seus gestos por fios invisíveis, à maneira de titerista divino ou mago prestidigitador.

Por quais caminhos Nachtergaele atingiu a condição do chamado “monstro de palco”, como poderoso magneto de inumeráveis cores e de intensidades controladas, em nuances vocais e movimentos corporais a soar ao mesmo tempo espontâneos e marcados com rigor?

Processo de Cons(c)erto do Desejo. Espaço de Convivência Sesc Pompeia, de quinta a domingo, até 1 de maio.

 

Atualiza-se, assim, o ator como atleta afetivo preconizado por Antonin Artaud (1895-1948), a propor um teatro alquímico, capaz de revelar e reorganizar magicamente as camadas do real tanto para o intérprete como para o espectador.

Terá, ainda, burilado essa capacidade nos longos processos do Teatro da Vertigem, em peças históricas como Paraíso Perdido (1992) e O Livro de Jó (1995), ambas do diretor Antonio Araújo.

Ou ao trabalhar por meses o potente elenco do longa-metragem amazonense que dirigiu, A Festa da Menina Morta (2008), filme pontuado de atuações de entrega absoluta para personagens de exceção, num Brasil cuja exceção acaba por constituir-se regra.

De qualquer maneira, quais sejam os atalhos percorridos até este Processo do Cons(c)erto do Desejo – estreado em 2015 no Festival de Inverno de Ouro Preto (MG) e destinado a uma longa trajetória –, ao interpretar a si mesmo como bebê e também a sua própria mãe, a poeta Maria Cecília, que suicidou-se aos 22 anos, quando ele tinha apenas três meses, Matheus revela, ainda, total domínio da escrita dramática.

Ela é composta, aqui, por montagem de trinta poemas e trechos do diário materno, além de observações do próprio ator sobre essa existência delicada como vôo noturno de mariposa, imagem que o ator sugere com as mãos após chocá-las contra as placas metálicas do cenário, que indicam concomitantemente barreiras espaciais e portais para além-espaço.

Cada um desses quadros é composto em registro diverso de atuação, bem como de posição espacial-cênica, e diferente desenho de luz. Passa-se assim, ora em saltos, ora em transições sutis, da dor no limite do suportável a uma sensualidade em registro espanhol, do amor materno incondicional a atitudes estóicas ante um quotidiano sufocante, até o limite do suicídio. Os contrastes entre as dezenas de quadros constituem, dessa maneira, fermento dramático.

Em meio aos verdadeiros jograis da luz assinada por Orlando Schaider, manchas circulares de afinações variadas, o autor e diretor elegeu contraponto dialógico com música abstrata de fundo clássico, feita ao vivo pelo jovem violonista Luã Belik, promessa de virtuose, e pelo violinista Henrique Rohrmann.

Duas canções singelas que a mãe costumava cantar, e que lhe foram ensinadas pelo pai músico (integrante da Traditional Jazz Band em certa época), são entoadas com afinação e em real diálogo com as cordas.

Um elegante vestido negro de noite com fecho de rosas bordadas, cópia daquele que Maria Cecília mantinha passado e pendurado em uma cadeira, “para ocasiões”, é envergado pelo filho de modo extremamente natural. Assim trajado, entre regozijos, desesperos, bailados e tropeços, ele conduz a si e à sua plateia um passo à frente rumo à compreensão do mistério de uma breve e intensa vida.

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