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Cultura

Concerto/Teatro

Legião de colcheias

por Alvaro Machado — publicado 24/06/2016 15h30
Música de qualidade em Campos do Jordão, os polos de amor e guerra na peça Os Dois e Aquele Muro e o hibridismo brasileiro em Projeto Brasil
Rodrigo Rosenthal
Marin-Alsop

Marin Alsop, uma das mulheres pioneiras a ocupar o cargo de regente

Com a inestimável colaboração de um inverno no rigor da palavra, a estação turística paulista de Campos do Jordão, a 1.628 metros de altitude, promove o 47º festival musical de sua história.

Os ingressos gratuitos garantem calor a plateias em geral lotadas mesmo pela manhã, como deverá ser o caso da principal atração, a Orquestra do Festival, formada por bolsistas deste ano, em quatro concertos sob o comando dos regentes Arvo Volmer, estoniano, e Giancarlo Guerrero, nicaraguense radicado nos EUA. No belo Auditório Cláudio Santoro, no dia 2, a abertura dá-se pela Osesp, regida por sua titular Marin Alsop (foto), com solos de violino por Karen Gomyo e de violoncelo por Christian Poltéra, em concerto duplo de Brahms. 

A França cede por um mês seu Quarteto Diotima, de cordas, a completar 20 anos, enquanto um contingente de pelo menos 600 instrumentistas brasileiros faz o ar rarefeito ressoar música de qualidade, com as orquestras de Heliópolis (regente Isaac Karabitchevsky), Goiás (sua Filarmônica, com o pianista Jean-Louis Steuerman) e São Paulo (Sinfônicas da USP e do Theatro Municipal, Orquestra do Theatro São Pedro). Haja fondue para aquecer a legião de virtuoses.

Festival de Campos do Jordão, SP. De 2 a 31 de julho

Teatro

Amores marciais

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(Foto: Bob Sousa)

Diziam os antigos que a vida humana gravita entre os polos de amor e guerra. No modo homossexual de relacionamento, em especial, busca de prazer e luta por poder podem alternar-se em dinâmica própria. Particularidades desse amor que com frequência se traveste de confronto são sublinhadas no texto de Ed Anderson levado à cena pelo veterano Francisco Medeiros, cuja trajetória a partir de 1972 é reconhecida por profissionalismo.

Há acentos de flashback aos anos 70 de dramaturgias com apenas um casal a digladiar-se, como nas experientes Alzira, de Antônio Bivar, e Garbo, de Fernando Mello, a cortejarem efebos. Mas não existe lugar para o humor no texto de Anderson, o que pode configurar qualidade num panorama saturado de comédias inconsequentes em torno de gays e trans. 

A cenografia de módulos espelhados de Heron Medeiros evidencia jogos de projeção entre os personagens vividos por Luciano Gatti e Plínio Soares. Esses se beneficiariam de escutar gravados seus diálogos a fim de aprimorar dicções. 

 Os Dois e Aquele Muro. Francisco Medeiros. Espaço dos Fofos, SP. Até 3 de agosto

A pátria ignota

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(Foto: Marcelo Almeida)

“A gente não dá conta do Brasil”, nota o diretor Márcio Abreu sobre a mais recente peça que dirige. E quem dará conta da “velocidade de transformações” desde 2013, fator central na nova dramaturgia da Cia. Brasileira, uma das raras trupes do País com trânsito internacional? Projeto Brasil estreou em outubro último, no Rio de Janeiro. Por três anos, a companhia pesquisou histórias, situações e pessoas em dez capitais brasileiras, revisitadas agora em turnê, a incluir Porto Velho e Manaus. 

A heterogeneidade percebida e a infinidade de temas recolhidos refletem-se, em cena, na interconexão de linguagens, com instalações sonoras e visuais, dança e teatro. São evocadas falas de pensadores como Jacques Rancière, Antonio Negri, Pierre Clastres e Eduardo Viveiros de Castro. A equilibrar tal diversidade repetem-se o cuidado artesanal e a coerência com que a companhia trata cada componente do espetáculo, da composição de tipos ao desenho preciso de luz, da sonorização erigida em linguagem ao elemento cenográfico sintético. A soma de virtuosidades garantiu a Projeto três prêmios.

Projeto Brasil. Márcio Abreu. Sesc Belenzinho, SP. Até 17 de julho