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Jia Zhangke inova com melodrama e Paulina aborda estupro

por Orlando Margarido — publicado 24/06/2016 15h31, última modificação 24/06/2016 15h31
As transformações da China são tema obsessivo do diretor, que se dedica a um gênero inédito em sua trajetória

As Montanhas se Separam, estreia de quinta 23, pode sugerir uma novidade na cinematografia do chinês Jia Zhangke. Isto se dá em parte quanto ao gênero incomum, se não inédito na trajetória do diretor, do melodrama estruturado em painel geracional. Trata-se, entretanto, de inovação apenas de linguagem, porque o conteúdo desvenda tema recorrente.

As transformações da China, de nação comunista em gigante capitalista a se debater no impasse entre tradição e modernidade, são tema obsessivo de Jia. Quem assistiu ao documentário de Walter Salles deu-se conta do quanto o filho de família de classe média do interior sentiu a nova ordem no ambiente de casa. A diferença desta vez é que a violência em todas as suas manifestações não serve como elemento dramático potente, a exemplo do anterior Um Toque de Pecado. Agora é o próprio capital o fator de desintegração e mudança. 

Para tanto, o filme não se furta a uma representação evidente. Três jovens convivem entre amizade e flerte, dois deles apaixonados pela mesma garota. Seus sonhos refletem o consumo americano e será aquele de melhores conquistas financeiras o escolhido por ela. O filho da união se chamará Dollar, e por ele acompanharemos mais tarde a total ruptura com a origem quando migra para a Austrália para morar com o pai. Curioso que seja essa parte final a menos elaborada, como a refletir a  dificuldade do diretor em trabalhar com o que não lhe é íntimo. 

As Montanhas se Separam. Jia Zhangke  

 

 

A calhar

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Durante boa parte do drama vivido em Paulina, a protagonista do título (Dolores Fonzi) exibe certo alheamento aos fatos, como a demonstrar que a crise pessoal confere seu princípio norteador de decisões. A primeira delas estabelece um enfrentamento com o pai, advogado que não aceita a resolução da filha de largar a mesma carreira promissora para dar aulas num vilarejo pobre.

Paulina. Santiago Mitre

Munida de idealismo ingênuo e perigoso, Paulina acredita poder fazer algo mais por uma comunidade destituída de tudo. Haverá outros conflitos a testar seu credo e exigir escolhas. Após ser estuprada por jovens locais que não consegue identificar, retoma o cotidiano de professora e decide ter o filho.

O segundo ato do filme do argentino Santiago Mitre revela o expediente usado por ele no  longa de estreia, O Estudante. Neste, retrata o amadurecimento político de um jovem na universidade, com o pressuposto de alienação do rapaz. No caso de Paulina há um conceito estabelecido, mas não demeritório da problemática. Trata-se, sobretudo, do ponto de vista da personagem e sua condição confusa ante a vida.

 

 

Inspiração elaborada

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São muitas as discussões, influências e fontes  contidas em Academia das Musas, material que enriquece e estimula o peculiar filme do catalão José Luis Guerín. A partir do título, temos o professor italiano Raffaele Pinto que na Universidade de Barcelona organiza um projeto para falar sobre as musas. Ao debater sobre essas entidades míticas pretende devolver uma noção de poesia e amor a uma realidade carente dela. Utiliza para tanto A Divina Comédia, de Dante. Descobre, contudo, que a visão de suas alunas e de sua mulher é controversa e exige longas conversas e debates. 

Academia das Musas. José Luis Guerín

Dito assim, o filme parece ensaio em diálogos, mas Guerín introduz elementos de ruptura de linguagem que desorientam uma só apreensão. As conversas escapam da sala de aula e as mulheres  passam a debater o tema na perspectiva pessoal. Uma delas iniciará um romance com o mestre, e o documental e ficcional se mesclam. A dúvida sugere mais um expediente que leva à reflexão sobre as fronteiras entre um exercício intelectual e a realidade. É um jogo sofisticado, de um cineasta que prefere elaborar a explicar. 

 

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