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Graça e política no quem é quem

por Orlando Margarido — publicado 14/04/2016 04h49
O retorno à Hollywood dos anos 50 em "Ave, César!", o drama familiar de "Mais Forte que Bombas" e a redescoberta do clássico "O Escaravelho do Diabo"
Scarlett-Johansson

A falsa simpatia da personagem de Scarlett Johansson

Ave, César!, estreia da quinta 14, oferece simpático jogo de adivinhações como princípio de graça ligeira no novo filme dos irmãos Coen. No cenário dos bastidores da Hollywood dos anos 50 por eles contemplado em Barton Fink, em 1991, circulam personagens de inspiração real ou ficcional, mas prototípica.

Surge o galã canastrão e idiotizado (George Clooney), sua equivalente de falsa simpatia e grosseria (Scarlett Johansson, na foto), o ator novato limitado de compreensão (Alden Ehrenreich) ou as irmãs colunistas da fofoca (Tilda Swinton, em papel duplo). Gravitam em torno de Eddie Mannix (Josh Brolin), este o produtor real de atuação brutal suavizada para melhor caber ao registro.

A partir dele supõem-se as primeiras intenções de maior escopo, aquele político. Além dos atributos habituais do dono de estúdio, Mannix lida com os ecos do cenário da perseguição macarthista.

Ave, César! Joel e Ethan Coen

Em especial quando seu galã é sequestrado por um grupo comunista e volta ao set com exigências de classe e melhores salários. Merece bofetões do chefe, enquanto em outra ponta nasce uma estrela, talento do sapateado vestido de marinheiro (Channing Tatum). 

 

 

Sem explosões

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Jesse Eisenberg interpreta o irmão mais velho do adolescente Devin Druid

De carreira ainda modesta, Joachin Trier se interessa em investigar o mal-estar contemporâneo, em especial da juventude. Oslo, 31 de Agosto, que o projetou em festivais, trazia a reinserção social de um ex-viciado em drogas. Neste terceiro longa-metragem, Mais Forte Que Bombas, o olhar amplia-se sobre três gerações, ao mesmo tempo que se fecha na intimidade de um drama familiar. Trata-se da primeira produção internacional do diretor norueguês. O salto cobra seu preço. O registro é menos ousado, mas o contexto parece coerente.

Mais Forte que Bombas. Joachin Trier

A morte em acidente de carro de famosa fotógrafa de guerra (Isabelle Huppert) deixa a família em cacos. Cabe ao marido (Gabriel Byrne) recompor a relação com os dois filhos. O adolescente Devin Druid é arisco e isolado. Seu irmão mais velho (Jesse Eisenberg, foto) toca a vida longe de casa. Ao retornar para homenagear a mãe, o acerto de contas se dá. A contenção, algo sugestiva da cultura nativa do realizador, e favorável aos seus objetivos, aqui parece deslocada. O resultado é um filme respeitoso da correção.

 

 

Renovado e escolado

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Alberto (Thiago Rosseti) e o inseto que guarda mistérios (Foto: Aline Arruda)

Curioso que O Escaravelho do Diabo chegue aos cinemas remodelado não para adultos um dia mobilizados pelo livro. Se o filme com estreia na quinta 14 quer esta plateia, ambiciona mais a que porventura hoje se lance ao suspense de Lúcia Machado de Almeida. Para isso, tece estratégias a princípio contraditórias. A renovação baixa a idade do protagonista e tende a infantilizar o tom, em detrimento do traço juvenil. No oposto, amadurece importantes dados da narrativa, inclusive seu desfecho, e em especial a atualiza. Com isso o diretor Carlo Milani sintoniza nova geração.

O Escaravelho do Diabo. Carlo Milani

O estudante de medicina Alberto é agora um pré-adolescente (Thiago Rosseti) a investigar crimes. A primeira vítima é seu irmão mais velho, que como os demais alvos é ruivo e recebeu um escaravelho de aviso. A paixão por colega de escola o move e o garoto busca auxílio na internet e no antigo método de um delegado. 

 

É Marcos Caruso a elevar a média de atuação na mistura tragicômica do tipo acometido de mal degenerativo da memória. Esta solução problematiza o contexto, tanto quanto o que se chama hoje bullying, justificável ao mistério. Diverso do ecoado pela autora nos anos 50 de paranoia alemã, o expediente funciona e pode promover a redescoberta de um clássico de outros tempos.