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Essência autoritária

por Orlando Margarido — publicado 28/03/2016 04h19
O iraniano Mohsen Makhmalbaf capta o ditador em cada um
O-Presidente

“Algumas crianças vão crescer e achar que podem oprimir outros seres humanos”

De longe todo ditador assusta, de perto pode ser risível. É assim que o diretor iraniano Mohsen Makhmalbaf justifica a mudança de tom de O Presidente. De início uma alegoria satírica, o filme torna-se mais dramático e assume o registro de parábola com a intenção de representar não um em especial, mas todos os Estados ditatoriais. “De ontem, de hoje, e muito provavelmente de amanhã”, disse em entrevista no Festival de Veneza há dois anos. Se o Brasil enfrentou ditaduras e na última década contou com um presidente popular eleito pelo povo, frisou a CartaCapital, precisa sempre estar atento a não retroceder e zelar pelo maior tesouro, a liberdade.

Makhmalbaf pode expressar-se e trabalhar porque deixou o Irã em 2005. Enquanto seu colega Jafar Panahi filma no país de forma clandestina e cumpre prisão domiciliar, ele viabiliza na Geórgia uma produção de maior magnitude se comparada a filmes intimistas anteriores. Sem perder o conceito humanista que o consagrou. “Nascemos crianças inocentes, mas algumas vão crescer e achar que podem liderar e oprimir outros seres humanos com um papel divino, o que tento compreender com esse filme.”

O Presidente. Mohsen Makhmalbaf

Por isso a opção de representar as duas pontas desse processo na figura de um avô e seu neto. O primeiro, o presidente (Mikheil Gomiashvili), veste uniforme militar para comandar uma república hipotética no Cáucaso. Tem afeto particular pelo neto (Dachi Orvelashvili) e com ele no colo protagonizará cena simbólica do poder, quando para divertir o garoto manda acender e apagar as luzes da capital. Em certo momento, a iluminação não volta, ouvem-se metralhadoras e o levante da população se dá. Disfarçado, o mandatário foge com o menino e conhece as agruras da miséria que produziu no seu território.

 

O cineasta reconhece o apelo a certos estratagemas de convenção, um didatismo ingênuo que acredita ser inerente a esse tipo de universo autoritário e seus defensores. Produz, contudo, imagens fortes, como a da bebida a passar de mão em mão entre prisioneiros políticos e o ditador caído em desgraça. “Não há um ridículo nesses homens e seus palácios, no comportamento cínico e ambicioso que chega a constranger?”, pergunta, como em busca de confirmação. A resposta está mais latente do que nunca.