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É (quase) tudo política

por Orlando Margarido — publicado 07/04/2016 04h24
Uma oportuna seleção de documentários
Chicago Boys

Chicago Boys, ousadia econômica na era Pichonet

Cineasta de alma política, Vladimir Carvalho por vezes se volta ao front artístico. Buscou as raízes de José Lins do Rego e do rock brasiliense, documentários sobre um estado de coisas e, portanto, políticos. Espere-se o mesmo de Cícero Dias – O Compadre de Picasso, filme integrante do 21º festival É Tudo Verdade (www.etudoverdade.com.br), entre 8 e 17 de abril, em São Paulo e no Rio de Janeiro. Não cabe retrato convencional àquele que viu o mundo, foi preso pelo Estado Novo e depois pelos nazistas na França. O título alude à amizade do pintor pernambucano morto em 2003, aos 95 anos, com a vanguarda. Além de Pablo Picasso, Fernand Léger e Joan Miró.

Se a trajetória de Cícero Dias pode evocar certo lirismo diante da sinistra atualidade, outras ajudarão a entendê-la. Entre os 85 títulos de 26 países participantes do festival, há os que dão conta da memória política do País, agora engajada. Eduardo Escorel faz revisão de quatro horas em Imagens do Estado Novo 1937-1945. Do contundente 70, Emília Silveira atenta em Galeria F. ao militante de esquerda Theodomiro Romeiro dos Santos, preso e torturado em 1971.

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Cícero Dias - O Compadre de Picasso, trajetória feita de Lirismo

O complemento e contraponto na seleção estrangeira são propiciados pelo Chile. De lá vem Chicago Boys, de Carola Fuentes e Rafael Valdeavellano, sobre os jovens economistas responsáveis pelo modelo liberal na ditadura de Pinochet. Mais intimista, mas não menos revelador, é Allende Meu Avô Allende, em que Marcia Tambutti Allende reúne fragmentos familiares acerca do avô, o presidente deposto Salvador Allende. 

21º É tudo verdade, São Paulo e Rio de Janeiro. De 8 a 17 de abril

Cabe ainda acepção humanista mais ampla às crises políticas. Vencedor do Festival de Berlim deste ano, Fogo no Mar, do italiano Gianfranco Rosi, foca os refugiados africanos em Lampedusa. É barbárie tanto quanto a de judeus estudada em Shoah, de Claude Lanzmann, examinado por Adam Benzine. O tema desdobra-se, a respeito de ensaísta seminal do totalitarismo em Vida Ativa O espírito de Hannah Arendt, de Ada Ushpiz.

Benéfico voltar à poesia e ao romance, seja pelo argentino Ricardo Piglia, personagem de Andrés Di Tella em 327 Cadernos, seja por Armando Freitas Filho, que Walter Carvalho registra em Manter a Linha da Cordilheira sem o Desmaio da Planície. Será a primeira vez que os irmãos Carvalho competem entre si num festival. Por certo, sem prejuízo à arte.