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Do horror do Holocausto às dores de DiCaprio

por Orlando Margarido — publicado 04/02/2016 05h02, última modificação 15/02/2016 13h08
'Filho de Saul', do perturbador Lázló Nemes, as questões fundamentais de 'Body' e o último feito de Alejandro Iñárritú chegam às salas

Nunca esgotado

Parecia improvável, mas Filho de Saul, estreia de quinta 4, trata do Holocausto como nunca se viu antes. Há títulos de referência no assunto, da grande produção de A Lista de Schindler, em que Steven Spielberg invertia a lógica ao mostrar judeus salvos, ao foco documental e poderoso da Shoah.

Nessa empreitada de Claude Lanzmann tem-se uma referência para o perturbador filme do húngaro Lázló Nemes, indicado ao Oscar de filme estrangeiro. Um depoente volta ao campo de concentração para lembrar como colaborou para aniquilar os seus. Como muitos judeus, foi forçado pelos nazistas à tarefa. Não se pode imaginar horror maior.

Filho de Saul. Lázló Nemes

Desse contexto sai a matéria angustiante do pesadelo de Saul (o impressionante ator Géza Röhrig). Ele integra o Sonderkommando de Auschwitz, eufemismo usado pelos alemães para a unidade responsável por despojar os presos na antessala da câmara de gás.

Trabalha num estado de exaltação e perigo quando lhe chega o corpo de um menino que reconhece ser seu filho. Decide dar a ele funeral digno e sai em busca de um rabino.

Mas há a curva dramática e uma dúvida se impõe. Nemes reforça a opressão com uma tela vertical menor que a habitual e os sons de sugestão antes que a visão. Ouvir pode ser mais incômodo do que ver.

Males Atuais

Body. Malgorzata Szumowska

Body é a síntese de algumas questões fundamentais de nosso tempo. São situações entrecruzadas a partir de personagens que se relacionam. Há o pai que trabalha em um necrotério, sua filha anoréxica e a terapeuta dedicada a ajudá-la por meio da espiritualidade.

No primeiro caso impõe-se a violência, pois o profissional lida com a crônica policial. A jovem em casa não lhe traz alívio ao padecer de recorrente doença moderna. E temos ainda a religiosidade investida de terapia, na crença de que falar com os mortos pode salvar. Outro conhecido apego na atualidade.

Trailer-do-filme-Body

Que essa leitura venha da Polônia, país que não costumamos reconhecer pela cinematografia contemporânea, reforça o tom inesperado da crítica. Trata-se de nação de profunda fé católica que o comunismo não arrefeceu.

O país saiu do regime político para uma oferta capitalista com traumas e indecisão entre manter a tradição ou renovar-se. Curioso é o fato de a diretora Malgorzata Szumowska, premiada em Berlim, recorrer ao humor para dar conta das questões.

Feito para eles

O Regresso. Alejandro González Iñárritú

Antes de tudo, é preciso dizer que O Regresso é um feito. Narrativo, técnico e por tantas outras abordagens efetivadas pelas 12 indicações ao Oscar.

Se algumas são barbadas, outras, a exemplo de melhor filme, direção para Alejandro Inãrritú ou ator para Leonardo DiCaprio, dependem de variantes e a brincadeira pode ser discuti-las até a entrega do prêmio. Que assim seja, porque há tudo menos razão para se divertir no filme que estreia quinta 4. 

O Regresso.jpeg
Leonardo Di Caprio concorre ao Oscar de melhor ator
Sofre-se com e pelo personagem até o limite da exaustão. A questão é avaliar se vale sofrer por duas horas e meia. DiCaprio é o desbravador que no século XIX experimenta a tragédia completa. Vê seu filho ser assassinado e ele mesmo abandonado à morte depois de luta aguerrida com um urso. Sobrevive e vai no encalço do matador (Tom Hardy).

O sentido de vingança orienta a trama e em vez da paisagem seca de John Ford temos a neve quase intransponível. Se há a forma clássica por um lado, por outro a inovação depende do esforço físico empreendido para se concluir.