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Divino maravilhoso

por Rosane Pavam publicado 29/04/2016 12h59, última modificação 30/04/2016 10h01
Fernando Faro revolucionou a televisão com música
Karime Xavier
Fernando Faro

Em close e big close, revelou a humanidade na tela

Fernando Faro achava que o plano geral em televisão não mostrava nada. O “nada”, neste caso, poderia ser entendido como “o homem”. Eram nada os jogadores de futebol quando ele os via pela tevê. Nessa situação, craques como seu ídolo Jair Rosa Pinto, que ao se transferir do Palmeiras ao Santos o fizera virar a casaca, pareciam marionetes em torno da bola. Faro quis fazer diferente.

Ele mostrou a humanidade em close e big close na tela, até bem próximo de sua morte, ocorrida por infecção pulmonar naquele domingo 24, em que o Santos venceu uma partida contra o Palmeiras.

A televisão brasileira deve a Faro muito de sua breve relevância. Nascido em Aracaju, em 1937, veio estudar Direito em São Paulo, para desistir no terceiro ano. Muitas colunas no prédio da São Francisco, pouco coração nos homens, e ele passaria ao jornalismo.

A tevê experimental o faria ampliar a invenção. Em 1964, criou um programa de estrutura solta, à moda da arte de Alexander Calder. Móbile trouxe um Chico Buarque que nem mesmo deixara a faculdade. Quatro anos depois, Faro veria muita alegria na Tropicália.

E dedicaria a ela Divino Maravilhoso, programa em que Caetano Veloso e Gilberto Gil poderiam fazer o que quisessem, até mesmo jogar uma partida de tênis de mesa com João Gilberto, sem que ninguém os perturbasse.

Ensaio apareceu em 1969. Os grandes músicos populares punham-se em estúdio a interpretar suas canções e, enquanto tocavam, Faro os entrevistava. Vinicius de Moraes, Ciro Monteiro, Cartola, Martinho da Vila, Ismael Silva, Lupicinio Rodrigues, foram tantos. Faro, que todos chamavam Baixo, entendia-se um “ruído” como entrevistador e não mostrava sua voz ao fazer as perguntas.

“Baixo” também poderia designar o silêncio, o ritmo lento que ele imprimia à gravação. Os músicos falavam o que Baixo perguntasse, mesmo sem perceber. Outra característica do programa foi aquela que o levou a ser apelidado de “tevê feijoada”. Os olhos, as mãos, os narizes, o suor, os dentes, por exemplo, de Elis Regina, essas eram as verdades na imagem dos músicos que ele se comprazia em revelar.

Era amigo dos entrevistados. Pipo Pegoraro, por exemplo, entendeu sua oportunidade com ele como “instantes entre a memória, o intenso, o misterioso e a calmaria”. A cantora Blubell sentiu-se emocionada, como conta a CartaCapital, até porque, naquele 2012, Baixo revelou muito saber sobre seu tio-avô, o historiador Ernani da Silva Bruno.

“Eu estava nervosa a ponto de as minhas mãos suarem. Mas a conversa foi evoluindo e eu, relaxando. O Faro era cem por cento doçura e zero afetação. O momento mais marcante foi quando ele me perguntou o que eu ouvia na adolescência e citei George Gershwin. Ele me fez cantarolar Gershwin à capela. Como eu queria que todo entrevistador me pedisse uma coisa dessas... Ficamos amigos. Queria ter tido a chance de ouvir mais histórias. Imagine quantas histórias eu deixei de ouvir.”

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