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Cinema

Da pretensão de 'Tudo Vai Ficar Bem' à naturalidade de 'Ela Volta na Quinta'

por Orlando Margarido — publicado 02/03/2016 14h54, última modificação 02/03/2016 15h54
Nos cinemas, há ainda 'O Abraço da Serpente', de Ciro Guerra, que mostra com equilíbrio os olhares do visitante e o do dito selvagem

 

Houve o Wim Wenders existencial, metafísico de Paris, Texas e Asas do Desejo. Três décadas depois, o diretor hesita entre o realismo vulgar e a pretensão intelectual. Pode-se excetuar Pina, documentário em que Wenders apenas evidenciou a arte da coreógrafa, e nem tanto O Sal da Terra, no qual se espelham ambições. Necessário muito mais para tornar Tudo Vai Ficar Bem um drama digno, em cartaz a partir da quinta 25, pois se trata de dignificar o que não merece.

Tudo Vai Ficar Bem. Wim Wenders

A estratégia envolve um escritor em crise (James Franco) e uma ilustradora (Charlotte Gainsbourg). Junta-os um trauma quando o autor atropela e mata uma das duas crianças da desenhista. Ele é casado, mas a atração se opera, da mesma forma como o realizador crê na fantasia romântica cravada pela dor real. Esta reviverá pelo outro filho no momento em que a chance do sucesso literário se apresenta ao protagonista. Wenders mantém o conflito dramático fraco, inclusive com pouco esforço dos atores.

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 Pelas bordas

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Há esforço mais aprofundado a unir Ela Volta na Quinta e A Vizinhança do Tigre além do que sugere a origem fora das grandes capitais. Se os filmes dos mineiros André Novais Oliveira e Affonso Uchôa, estreias de quinta 25, se valem da periferia de Contagem, não é apenas por condição casual em relação a Belo Horizonte. Valem-se como afirmação de existência, de identidade e do significado de ali estar. Unem-se ainda no mimetismo documental e ficcional, mas em universo distinto.

 

O ambiente de Oliveira é a própria família. Um núcleo negro, significativo na raridade da produção nacional, aqui sem maior relevância. Em foco estão conflitos e expectativas do clã com a crise no casamento dos pais. Encena-se com tal naturalidade que se pode ousar imaginar o problema, como se dá nas melhores casas.

 

É outro o pivô dramático de A Vizinhança do Tigre. Garotos discutem o cotidiano limitado. A cena realista aos poucos passa a ser interpretada num clima de masculinidade pesada que sinaliza a tragédia.

Ela Volta na Quinta. André Novais Oliveira

A Vizinhança do Tigre. Affonso Uchôa

 

Olhar ao outro

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O Abraço da Serpente, previsto para a quinta 25, traz pontos de contato com determinada produção brasileira, especialmente documentários, a partir de sua perspectiva etnográfica real. Para além do universo indígena em questão, o filme do colombiano Ciro Guerra em disputa pelo Oscar estrangeiro toma de opções de estilo e narrativa ficcional que lhe são peculiares.

 

A escolha do preto e branco acentua certa qualidade formal e cai bem a noção histórica entre passado e futuro. O equilíbrio de olhares do visitante que vem civilizar e do dito selvagem oferece interessante abordagem das sequelas desse confronto sempre deletério.

O Abraço da Serpente. Ciro Guerra

Os estranhos ao hábitat amazônico são dois exploradores em diferentes tempos, em cujas anotações se baseia o filme. O alemão Theodor Koch-Grümberg chega no início do século XX à procura de planta sagrada e conta com o xamã Karamakate. Três décadas depois, o indígena velho e último remanescente de seu povo será guia do americano Richard Evans Schultes, etnobotânico que pesquisa espécimes alucinógenas. A passagem do tempo e a experiência definidora para esses homens resulta numa potente e bela análise da alteridade.