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Colorido morno

por Orlando Margarido — publicado 08/09/2016 11h12
Em "Nós Duas Descendo a Escada", amor entre mulheres que não ousa tanto
Bruno Polidoro
NDDAE

As idas e vindas das duas personagens

Fabiano de Souza elaborava o projeto de Nós Duas Descendo a Escada, previsto para quinta 8, quando Abedalatif Kechiche lançou no Festival de Cannes, há três anos, Azul é a Cor Mais Quente, com o impacto e os prêmios sabidos.

O filme do jovem diretor gaúcho somente chega agora ao circuito e talvez pague o preço de uma inevitável comparação com seu similar francês. Mas essa aproximação se dá apenas na evidência de um tema por si propenso a estigmas, como o da homossexualidade, e feminina. Pode ser superficial analisar a proposta de ângulo, digamos, mais apelativo, nas referências às cenas de sexo que dominaram o debate em torno do longa francês.

Antes de tudo porque Fabiano de Souza prefere um tratamento menos exposto do sexo e trabalha no registro pessoal de influência cinematográfica. Filho do crítico de cinema Enéas de Souza, ele moldou a vocação cinéfila ao lado do pai e isso transparece na tela.

Nós Duas Descendo a Escada. Fabiano de Souza

Em especial, há um toque da Nouvelle Vague de François Truffaut e de Eric Rohmer nas idas e vindas amorosas das duas garotas em questão (Miriã Possani e Carina Dias). Há o percurso tradicional do conhecimento, da convivência e do ápice do amor, até o desgaste pelo ciúme e novas necessidades. Se falta ao roteiro mais amadurecimento, sobram cuidados como o de revelar uma charmosa Porto Alegre arquitetônica.

 

 

Garoto pródigo

Lolo

O novo filme de Julie Delpy não destoa de toda a produção que marcou esta diretora e atriz, estrela de filmes de Richard Linklater. Ligeiro, bem-humorado e universal, a vagar sobre os tormentos conjugais e familiares, Lolo – O filho da minha namorada, sob sua direção, encanta ao mostrar uma bem-sucedida profissional parisiense da moda em férias, durante as quais conhece um tipo local, um caipira. 

Divorciada, a Violette de Delpy tem um filho de 20 anos (Vincent Lacoste) mimado, manipulador e pouco afável com os eleitos da mãe. Compete com eles por atenção e um amor além do filial. O executivo de boa índole Jean-René (Dany Boon) sentirá os ciúmes do rapaz em ardis que expõem a natureza infantil deste. A trama, algo óbvia, é conduzida com encanto. Curioso notar certa semelhança física da vítima com o ex-presidente Nicolas Sarkozy, um parisiense nato e de trato rude, em contraste com o protagonista.

Lolo – O filho da minha namorada. Julie Delpy

 

 

À margem

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Com mais de três décadas de carreira, ao menos um filme a cada ano, o canadense do Quebec Robert Morin prossegue desconhecido entre nós. Sua prolífica trajetória, entre o popular e o experimental, ganha inédita revisão no CCBB de São Paulo até dia 12. Foram reunidos 30 projetos entre curtas, médias e longas, a maioria a partir de 1977 (na foto, Histo, quando o diretor fundou produtora coletiva e independente.

Robert Morin – Reinventando o Quebec. Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo. Até 12 de setembro

Antes, porém, já filmava, como se pode conferir no curta Os Fisiculturistas. Com uma linguagem entre o absurdo e o picaresco, dedica-se a um substrato social violento de marginais e drogados. Ganhou notoriedade em 1987 com Tristeza – Modelo Reduzido, sobre jovem com síndrome de Down, e no ano seguinte com A Recepção, baseado em Agatha Christie. Chega-se ao mais recente filme, Um Paraíso para Todos, sobre contador demitido que se vinga com vídeo sobre fraude. Morin participa de masterclass na quarta 7, às 17 horas, e debate na quinta 8, às 19 horas.