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Cia. do Latão nos reaproxima do teatro Arena de São Paulo

por Alvaro Machado — publicado 04/07/2016 13h41, última modificação 05/07/2016 09h12
'O Pão e a Pedra' partem de greve como arma política decisiva em montagem que ecoa escolhas de Oduvaldo Vianna Filho e Augusto Boal
Fotos Sérgio de Carvalho
O Pão e a Pedra

Na construção dramática, vazada na forma épica preconizada por Bertolt Brecht, acompanhamos as estratégias de avanços e recuos em negociações com patrões

Episódio central em toda a história do teatro brasileiro, as montagens épicas levadas pelo teatro Arena de São Paulo nos anos 1960, com direções de Augusto Boal, José Renato e outros, tornam-se novamente próximas com a escolha do tema da nova peça da Cia. do Latão. Após concorrida temporada de estreia em São Paulo, O Pão e a Pedra, com dramaturgia e direção de Sérgio de Carvalho, inicia turnê nacional por Belo Horizonte.

Assim como em muitas das escolhas do Arena do dramaturgo Oduvaldo Vianna Filho (1936-1974) e de Boal (1931-2009) – bem como do Centro Popular de Cultura (CPC) da UNE (com Vianinha) até sua extinção forçada em 1964 – é a circunstância da greve como arma política decisiva o que se focaliza em O Pão e a Pedra.

O Pão e a Pedra. Dir.: Sérgio de Carvalho. Centro Cultural Banco Do Brasil de Belo Horizonte (CCBB-BH), de 7 a 11 de agosto, iniciando turnê nacional.

A atual ausência de lideranças políticas com foco e real poder de mobilização redobra a atualidade do tema escolhido, em torno das últimas greves no País a obter conquistas reais e a contaminar, assim, dezenas de categorias de trabalhadores a partir de seu estopim.

Este foi aceso primeiramente pelos metalúrgicos de São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, com a pertinaz sequência de greves realizadas entre 1978 a 1980, que custaram não poucos sacrifícios a seus participantes ao longo daqueles três anos. Sob a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva, as assembleias no Estádio da Vila Euclides (São Bernardo) chegavam a reunir mais de 70 mil pessoas.

Alimentava-se, então, expectativas saídas do imaginário de três grupos: o novo sindicalismo, a Igreja progressista e o movimento estudantil de esquerda, conforme estruturado na montagem de Carvalho quanto à repartição de situações e personagens. Em procedimento característico da cia. paulista, o diretor musical e pianista Lincoln Antônio acompanha os dez atores, a sublinhar os principais gestos dos protagonistas.

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Na construção dramática, vazada na forma épica preconizada por Bertolt Brecht, com citações diretas das chamadas “peças didáticas” do autor alemão nos anos 1920-1930 (como as ainda instigantes A Decisão e A Mãe), acompanhamos as estratégias de avanços e recuos em negociações com patrões, que afinal levaram a reposições de ajustes arrochados por anos a fio e à conquista de direitos básicos.

Dezenas de outros sindicatos seguiram então, com sucesso, a estratégia adotada pelos metalúrgicos do ABC, a beneficiar até mesmo, após grandes sindicatos operários, uma ampla gama de trabalhadores da área de serviços.

A trama acompanha dificuldades de protagonistas daquelas greves, em histórias de aprendizado político e de luta pela sobrevivência, em especial no caso de operária disfarçada de homem para melhorar seu salário (Helena Albergaria), em ainda atual questionamento da situação feminina no ambiente fabril.

De maneira semelhante, um núcleo familiar era visto sob a lupa em Eles Não Usam Black-Tie (1958), de Gianfrancesco Guarnieri, do Teatro de Arena, peça tornada filme com Fernanda Montenegro e com o próprio Guarnieri, pelas mãos de Leon Hirszman, em 1981. Este diretor abordou o mesmo episódio grevista focalizado pelo Latão no documentário ABC da Greve (realizado em 1979-80 e lançado apenas em 1990) .

No bojo desta montagem estão sendo lançadas, ainda, duas edições críticas saídas do Laboratório de Investigação de Teatro e Sociedade (SP), orientado por Sérgio de Carvalho. Os livros são Peças do CPC  e Primeira Feira Paulista de Opinião, este a reunir peças de Guarnieri, Augusto Boal, Bráulio Pedroso, Jorge Andrade, Lauro César Muniz, Oduvaldo Vianna Filho e Plínio Marcos (edição Expressão Popular/LITS).

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