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Berlinale: uma premiação engajada e quase impecável

por Orlando Margarido — publicado 22/02/2016 09h46
O italiano Fuocoammare, que retrata o drama dos refugiados, levou o Urso de Ouro
Divulgação
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O vencedor do Urso de Ouro de 2016, Fuocoammare

De Berlim

Faz quatro anos, os irmãos Paolo e Vittorio Taviani saíram com o maior prêmio da Berlinale pelo belo César Deve Morrer. Era um projeto artístico ousado, mas também político, realizado com a atuação de amadores, detentos de uma prisão nos arredores de Roma. A Itália agora leva mais uma vez o Urso de Ouro por outro trabalho engajado com tema que está diariamente na mídia.

Fuocoammare trata da questão dos refugiados africanos que se lançam ao mar em desespero e chegam na ilha de Lampedusa, próxima à Sicília. Seguem em embarcações precárias, amontoados, e muitos não sobrevivem ao trajeto. Morrem no caminho.

É o horror real porque o diretor Gianfranco Rosi é partidário de um cinema documental que por vezes encena, outras usa do impacto para provocar. Uma sequência mostra cadáveres empilhados no porão do barco. Mas há uma elaboração além disso, como havia com Sacro Gra, nem tão bom, controverso mesmo, vencedor do Leão de Ouro em Veneza.

Meryl Streep, a presidente do júri em Berlim, não tem, claro, a ligação com o país que tinha Bernardo Bertolucci quando premiou seu compatriota na mostra italiana. Foi sincera e contundente ao justificar que o filme tocou a todos e deve ser visto também como uma afirmação política sobre um desastre humanitário que tem de ser revertido. 

No atacado, o grupo liderado por Meryl fez bom trabalho. No varejo, pode-se fazer algum reparo, como a atribuição sempre passível de ser questionada na preferência por filmes e o troféu atribuído.

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Cena de 'L'Avenir', que deu o prêmio de melhor diretora a Mia Hansen-Løve

O Grande Prêmio do Júri a Death in Sarajevo, de Danis Tanovic, talvez reflita algum impasse entre os jurados, pois também é trabalho de cunho político, agora na ficção, que não ficaria mal como premio principal. Mais cedo, o bósnio foi laureado com o prêmio da crítica, a Fipresci. Criou-se a expectativa, pois é tradição os jornalistas especializados indicarem um sinal sintonizado com o gosto do júri oficial. Ele não aconteceu, e o próprio Tanovic parecia desapontado no palco. 

Mas essa composição no pódium central pareceu dar oportunidade para que um talento mais jovem como a francesa Mia Hansem-Love fosse reconhecida na direção por seu L'Avenir, drama de toques cômicos muito simpático levado por Isabelle Huppert.

Aliás esta seria uma das atrizes prediletas em concurso não fosse o fato de que essa 66ª edição pertenceu às mulheres. Difícil reprovar a escolha da dinamarquesa Trine Dyholm para o posto por sua maravilhosa atuação como a mulher madura trocada por mais jovem pelo marido. No filme The Commune, ou A Comuna, de Thomas Vinterberg, ela tenta mas não consegue suportar a convivência com o novo casal na república formada por amigos nos anos 70. 

O filme mereceria mesmo algo mais mas são poucos os prêmios e um deles foi contestado, inclusive eticamente. O polonês Tomasz Wasilewski venceu melhor roteiro por seu filme United States of Love, um drama rude, forte, considerado apelativo e pretensioso por aqui.

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Cena de 'Death in Sarajevo', que levou o Grande Prêmio do Júri

O diretor é jovem e foi assistente de Malgorzata Szumowska, que no ano passado ganhou o Urso de Prata de direção por Body, há pouco visto no Brasil. Acontece que a diretora integrou a equipe de Meryl e isso gerou alguns comentários quanto à decisão.  

Mais evidente era que Lav Diaz não sairia de mãos abanando do festival que ousou colocar seu filme de oito horas na competição. A Lullaby to the Sorrowful Mystery é um sofisticado painel em preto e branco sobre o período de colonização espanhola nas Filipinas e a luta de libertação.

O Prêmio Alfred Bauer, dedicado a projetos que abrem novas perspectivas ao cinema, é mais do que na medida para o que parece ser uma extravagância, apenas na duração, e se efetiva como cinema de primeira linha.  

Por fim, um concorrente que abriu modestamente a competição foi elevado à categoria também merecida. Hedí, do tunisiano Mohamed Ben Attia, foi reconhecido como o melhor primeiro filme e ainda rendeu o Urso de Prata de interpretação ao jovem Majd Mastoura. Em que pesem atuações masculinas fracas, o ator se evidencia e é cativante no papel de noivo que descobre a liberdade com outra mulher de espírito liberal.

Se havia dúvidas de um simbolismo da situação de opressão e revanche por qual passou a Tunísia, Mastoura confirmou com seu discurso politizado e a dedicação do prêmio ao povo lutador de seu país. A se lamentar o descarte de alguns bonitos projetos como Cartas de Portugal – e o país foi reconhecido no melhor curta-metragem de Leonor Teles, Balada de um Batráquio – mas o júri fez sua aposta em sintonia com preocupações que são também as da Berlinale.

 

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