Cultura

Festival de Berlim

Berlinale se posiciona entre a convenção e as relações sociais

por Orlando Margarido — publicado 16/02/2016 19h45
Primeiro bloco de filmes ainda não temas políticos, marca do festival, mas não deixou de abordar questões sérias
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Cena do longa Smrt u Sarajevu, em exibição na mostra

Do casamento arranjado de Hedi ao hotel como metáfora para o eterno conflito étnico dos Balcãs explorado em Death in Sarajevo, o primeiro bloco de filmes em competição da Berlinale não encarou de frente ainda o tema político, tradição da mostra alemã.

Mas trouxe questões sérias pelas beiradas na maioria dos doze títulos já exibidos até agora da competição oficial, em que pese o nível de qualidade variável, mas crescente. Tanto um caminho como o outro costuma seguir nessa chave. Ou seja, mostra-se o melhor quanto mais perto da premiação.

Então o certo para esse balanço seria começar pelo fim? Talvez, porque o filme do bósnio Danis Tanovic é muito bom e potente ao partir de um texto teatral de Bernard-Henri Lévy e dar conta das novas estruturas de poder que se estabeleceram em Sarajevo depois da matança da guerra. Assim como neste drama, as relações e problemas pessoais são usados para investigar as dimensões maiores que escondem.

No filme de Tanovic, o Hotel Europa que dá título a peça de Lévy se prepara para receber uma alta comissão européia enquanto tenta barrar uma greve de funcionários por dois meses sem pagamento.

O negócio está em crise e o proprietário deve ao mafioso que explora o cassino e o inferninho do local. Sua gerente procura convencer a mãe, a mais antiga funcionária e serviçal na lavanderia, a desistir de liderar o protesto.

Ao mesmo tempo, uma equipe de TV grava no terraço um especial sobre a figura de Franz Ferdinand, o príncipe do império austro-húngaro assassinado em Sarajevo, morte que deflagrou a Primeira Guerra. Chega um entrevistado que leva o nome do herdeiro do trono e a repórter se indispõe com seu ponto de vista sobre o personagem e as recentes lutas étnicas. 

De repente, tudo se precipita. Os brutamontes do mafioso entram em ação para decretar o fim da greve. O segurança drogado e dedicado a cuidar de um convidado francês ilustre (o intelectual e agora ator Jacques Weber) toma uma atitude desastrada, enquanto o diretor do hotel se insinua a jovem de promissora carreira. Uma narrativa tensa, detalhada a ponto de ser por vezes difícil compreender os ódios em jogo, mas suscinta e exemplar.

Não tem sido esta, a síntese, a preocupação da maioria dos filmes. Nem tampouco a originalidade na forma e na narrativa, exceção a consagrar a regra de Cartas da Guerra. O representante português no concurso oficial, em ano que Portugal tem oito títulos na Berlinale, arrisca muito como se viu na recepção dividida ao filme ao escolher o formato epistolar para adaptar o livro de António Lobo Antunes.

Antes de escrever sua primeira obra nos anos 70 e se tornar um dos maiores escritores da terra, o também médico serviu ao país no combate a revolução em Angola. Os anos em que ali passou coincidem com a primeira gravidez da mulher e a troca de cartas que se deu entre os dois no período seria por ele publicada.

O preto e branco elaborado, a voz narrativa sempre feminina ditando as cartas e o tom reflexivo dos homens no front, entre uma ou outra ação, não agradou a toda a imprensa. Mas arrisco dizer que é muito mais pela distância e o desconhecimento da importância daquele período histórico aos portugueses, e por consequência, da dificuldade de tratar do tema da guerra ultramarina no cinema.

Desafio que me parece só Manoel de Oliveira cumpriu em circuito mais internacional com Non ou a Vã Glória de Mandar. Curioso como se espera pelas novas experiências e quando elas chegam não há sequer a ponderação, a dúvida.

O filme de Ivo Ferreira é bonito, tocante, ousado ao fincar pé numa narrativa difícil que é a epistoral. De certa maneira tem toada semelhante ao Miguel Gomes de Tabu, talvez até por contar com a mesma empresa produtora.

Mais palatável seria, então, Hedi. Pode-se atentar a qualidade da franqueza em se assumir um trabalho convencional para falar, mais uma vez, das dúvidas amorosas. Bem verdade que a tradição muçulmana impõe ao filme de estréia do tunisiano Mohammed Ben Attia uma característica particular a mais, quando um jovem levado pela mãe prepotente a um casamento arranjado encontra a liberdade ao conhecer uma garota de valores abertos.

As questões sociais como as políticas, com ecos de discussão sobre os primeiros protestos no mundo árabe, estão de novo no entorno. Do mesmo modo, mas com intérpretes superiores e em grande parte responsáveis pela dramaticidade, Alone in Berlim consegue contornar o desgaste do tema do nazismo ao romancear história real de casal alemão (Emma Thompson e Brendan Gleeson) que perde o único filho no front.

O pai decide então distribuir pela cidade cartões com mensagens contra a euforia nazista. Quer abrir os olhos a tragédia dominante. Será, claro, perseguido pelas autoridades.

Cinema convencional, mas atraente ao sintonizar um caso nem tanto conhecido, e o também ator Vincent Perez não parece querer mais que isso na direção. Como Alone in Berlim, The Patriarch surge quase como novela de época tão asséptica que pode apenas requerer simpatia ao universo maori, de onde provém o diretor Lee Tamahori.

Ele trata de três gerações de família desbravadora, representada entre as tradições dos nativos neozelandeses e costumes ocidentais, comandada por patriarca dominador. São títulos que sempre surgem em vitrines dos grandes festivais para que se cumpra no painel restante um tipo de cinema, digamos, mais engajado, bem ao gosto da casa.

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Fuocoammare

 

O primeiro nesse sentido a ser exibido foi Fuocoammare, o novo documentário do italiano Grianfranco Rosi. O diretor venceu o Leão de Ouro de Veneza há três anos com Sacro GRA. Dificilmente o teria conquistado se não fosse Bernardo Bertolucci o presidente do júri.

A boa notícia é que Rosi fez um filme superior, muito superior ao anterior. Ainda que vícios recorrentes possam ser anotados aqui e ali, como certo formalismo e tom gráfico ao elaborar por demais algumas tomadas, é impactante sua visita a ilha de Lampedusa, onde tentam chegar em embarcações precárias imigrantes da África.

Das tragédias, com centenas de mortes em naufrágios, os jornais dão conta, mas Rosi nos detalha as operações e os profissionais envolvidos nos resgates. Isso entremeado ao cotidiano de moradores da ilha, entre eles um menino de olhar atento ao entorno, protagonista perspicaz do filme.

Rosi assume certa encenação e preparo das cenas pois garante ser muito mais cruel o que a realidade apresenta, daí acreditar ser imoral mesmo filmar tal contexto. Numa cena de difícil decisão, ele mostra os cadáveres dos que não resistiram no porão do barco durante uma das travessias.

 

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Mort à Sarajevo

A seleção ainda promete projetos numa linha de postura política que pode render, mas também com dramas familiares e de nova realidade de costumes, outra tendência com que a Berlinale gosta de jogar inclusive nas paralelas. De volta ao Panorama, depois de conquistar prêmios com Que Horas Ela Volta?, Anna Muylaert prossegue na sua investigação das novas identidades, sejam elas sociais como do confilito de classe, ou como agora das famílias e mesmo de gênero.

Mãe Só Há Uma aborda ambas ao focar dois irmãos adolescentes roubados na maternidade e sua reintegração aos núcleos de origem. O garoto, mais velho, revolta-se e quer a mãe não biológica.

Há mais: suas experiências sexuais com meninos e meninas é acompanhado do hábito de se travestir. Quem desejar fazer uma apreciação rápida, pode se equivocar. Muylaert mostra, com algumas situações truncadas, inclusive de escalação de elenco e interpretação, que não se pode mais tirar conclusões precipitadas.

Nesse sentido, a brasileira tem diálogo direto com pares na competição oficial, inclusive o veterano francês André Téchiné, que em Quando se Tem 17 Anos (numa tradução direta) enfoca a relação de dois garotos que se esmurram na escola para então deixarem cair a máscara de sua mútua atração.

Um dos melhores filmes exibidos até agora, assim como o da também francesa Mia Hansen-Love, L’Avenir, ou O Futuro. Trata-se da virada de vida da personagem de Isabelle Huppert, uma professora de Filosofia de estrutura familiar estável que um dia ouve do marido ter ele outra mulher. Separada, filhos crescidos, ela tenta se renovar, e quem ajuda é seu pupilo talentoso. Mas nada além da conversação. Aqui também a expectativa pode ser frustrada, mas é instigante e agradável acompanhar a liberdade dessa mulher.  

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