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Ópera / Teatro / Concerto

Beleza que deforma

por Alvaro Machado — publicado 17/08/2016 17h21
Enredo de fábula expressionista inspira-se em caso de amor
Julian Lepick
Mar-Oliveira

O tenor Mar Oliveira

coqueteria contumaz da vienense Alma Mahler (1879-1964), de beleza clássica, foi capaz de golpear fatalmente não apenas o coração de Gustav Mahler por seu caso extramarital com o jovem arquiteto Walter Gropius. Após a morte de Mahler, ela alimentou relação tempestuosa com o pintor austríaco Oskar Kokoschka. Finalmente, casou-se com Gropius, para traí-lo, então, com o poeta austro-boêmio Franz Werfel, seu último marido.

Em meio a tudo isso, teve tempo para conquistar, entre outros, o compositor e maestro austríaco Alexander von Zemlinsky. Este escreveu a ópera O Anão inspirado em seu caso com Alma. Para tanto, adaptou o conto O Aniversário da Infanta, de Oscar Wilde, no qual um anão dado de presente a uma herdeira da coroa espanhola acredita-se capaz de arrebatar seu amor, mas quando é confrontado à sua deformidade sofre choque mortal.

O enredo de fábula expressionista recebeu música de caráter ultrarromântico de Zemlinsky, também lembrado como professor de contraponto de Arnold Schoenberg. A encenação de William Pereira, com a Orquestra do Theatro São Pedro, regida por André dos Santos, configura-se como estreia nacional, pois a obra foi vista só em versão semiencenada, no Rio de Janeiro, em 2009. O tenor  Mar Oliveira (foto) é o protagonista.

O AnãoTheatro São Pedro, SP. De 17 a 28 de agosto

 

Teatro

Nas veias da metrópole

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O “encaretamento da sociedade brasileira” e a crise fabricada impulsionam retomada do livro (Foto: Jennifer Glass)

Em 2010, quando da morte do poeta paulistano Roberto Piva, aos 72 anos, o ator e diretor Marcelo Drummond, do “núcleo duro” do Teatro Oficina, começou a conceber espetáculo baseado no livro de poemas Paranoia, cuja edição de 1963 era ilustrada por fotos do artista Wesley Duke Lee (ed. Massao Ohno). Em 2000, o Instituto Moreira Salles promoveu reedição fac-símile da obra.

Paranoia. Marcelo Drummond. Teatro Oficina, SP. Até 4 de setembro

O “encaretamento da sociedade brasileira” e a crise fabricada e imposta são, para o encenador, motivo de retomada do livro. O teatro projetado por Lina Bo Bardi converte-se em aquário de projeções de vídeo (Igor Marotti e Pedro Salim), laser (Fábio Stasiak) e música ( Zé Pi). Drummond rejeita as classificações de recital ou sarau poético, a identificar sua criação com um concerto de roquenrol. A prosódia eleita para os fluxos quase vomitórios de Piva aproxima-se do frenesi beatnik que inspirou o poeta em sua ode à São Paulo de 1963, a antecipar o posterior movimento pop. Na barafunda da metrópole em ebulição, convivem referências a Antonin Artaud, Federico García Lorca e Mário de Andrade. 

 

Concerto

O Beethoven do tato sonoro

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Leif Ove Andsnes oferece ao público um repertório sólido

A Inglaterra resolveu adotar com entusiasmo o norueguês que, aos 46 anos, é uma das melhores opções para a obra pianística de Ludwig van Beethoven. Em 2015, Leif Ove Andsnes  ganhou o prestigioso prêmio BBC Music Magazine por uma caixa de cinco CDs (Sony Classical) com os concertos do compositor alemão, acompanhado pela Mahler Chamber Orchestra.

Leif tornou-se conhecido em toda a Europa pelo projeto Feel the Music, de sensibilização de crianças com deficiência auditiva por meio da obra de Beethoven, diagnosticado aos 46 anos com surdez profunda. O norueguês identifica em sua música uma qualidade de “vibração do som” capaz de estimular centros cerebrais de surdos, conforme estudos científicos recentes. O projeto é desenvolvido com o músico Paul Whitaker, deficiente auditivo.

Leif Ove Andsnes. Theatro Municipal do Rio de Janeiro, segunda 22.  Sala São Paulo, terça 23 e quarta 24

O dedilhado destacado, portanto muito claro, de Andsnes oferece ao público de Rio de Janeiro e São Paulo repertório sólido, a incluir, porém, dinâmica de contrastes. A primeira parte é aberta com a Sonata 18 – A Caça, de Beethoven, contraposta à liberdade de uma colagem de cinco fantasias do finlandês Jean Sibelius. Na segunda, as Estampes de Debussy preludiam três conhecidas baladas de Chopin. 

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