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A emasculação do patriarcado segundo Tennessee

por Alvaro Machado — publicado 06/06/2016 04h03
Escolhas da montagem de Eduardo Tolentino acentuam proximidades entre o sul dos EUA e o Nordeste brasileiro
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Cena de 'Gata em Teto de Zinco Quente', montagem de Eduardo Tolentino

Na montagem que respeita a integralidade do texto de Tennessee Williams, Eduardo Tolentino, criador do grupo paulistano Tapa, assina sua mais aprimorada direção em tempos recentes, a haurir forças com retorno de uma atriz saída do núcleo há quase vinte anos.

Barbara Paz deixa o ridículo dos estereótipos a ela pregados em novelas de TV para viver a Maggie alcunhada gata, que luta para reconquistar a atenção do marido abalado pela morte de amigo homossexual, em uma Mississipi de latifúndios de algodão tórrida tanto pelo clima como por sensualidades reprimidas.

Diálogos lapidares voam pelo palco, como facas afiadas lançadas uns aos outros pelos respeitáveis membros de uma família a disputar a herança de gigantesca fazenda, pouco antes da morte anunciada do seu patriarca. 

Gata em Telhado de Zinco Quente. Teatro CCBB-SP, até 26 de junho.

Escolhas da montagem acentuam proximidades entre o sul dos EUA e o Nordeste brasileiro, ao passo que os palavrões do Paizão vivido por Zecarlos Machado e os acentos naturalistas da atriz Noemi Marinho, como Mãezona, nos remetem à franqueza desabrida dos burgueses de Nelson Rodrigues.

Como no autor pernambucano, ao longo dos três atos – encenados acertadamente de maneira contínua –, os personagens expõem e cutucam suas feridas psicológicas, as falas seguindo em crescendo até a enxurrada indesviável rumo ao fecho escatológico. O texto foi, com justiça, vencedor do prestigioso prêmio americano Pulitzer em 1955.

Nenhum movimento de liberação gay no mundo dará conta, jamais, de abarcar as questões reveladas pelo personagem Brick, o filho dileto do latifundiário e marido da imprevisível e manhosa “gata”.

Arrasado pela percepção de sua homossexualidade latente – e então autoanestesiado com litros de bourbon –, o personagem é como o instrumento com o qual o dramaturgo norte-americano propõe a definitiva emasculação da estrutura patriarcal corporificada no Paizão.

Cena de 'Gata em Teto de Zinco Quente', montagem de Eduardo Tolentino

Este se move como espectro hamletiano entre vida e morte, fantasma insepultável destinado a assombrar gerações com seu autoritarismo, à maneira do coronel Aureliano Buendía na Macondo de Gabriel García Marquez.

No papel do esportista Brick, Augusto Zacchi força, sem muito sucesso, semelhanças com Paul Newman, que, no auge de beleza olímpica interpretou no cinema o jogador de futebol (“Cat on a Hot Tin Roof”, de 1958, cedeu ao Código Hays de censura e limitou severamente a crítica do autor à homofobia e ao machismo). O ator niteroiense logra, porém, sustentar seus difíceis diálogos do terceiro ato.

A cenografia não contribui especialmente para a linguagem cênica, mas alude com elegância à cultura do algodão. De maneira semelhante, na missão de figurinista, a consultora de moda Glória Kalil “fez” um bom  shopping e distribuiu seu gosto pelo degradê em peças de excelente tecelagem e bom corte. Já a luz chapada é mais significativa para o perigo de rigidez expressiva a espreitar a montagem.

Cena de 'Gata em Teto de Zinco Quente', montagem de Eduardo Tolentino

No entanto, seja pela objetividade da direção, seja pela entrega nas atuações de Paz e Machado, e, ainda, pela meridiana clareza dessa moderna tragédia, obra-prima de Williams, o espectador tem pela frente 150 minutos de vertiginosas oscilações entre dois pratos de uma balança, a disputar prevalências entre inebriante sensualidade e dura reflexão sobre a condição humana.

Cena de 'Gata em Teto de Zinco Quente', montagem de Eduardo Tolentino