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Cultura

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Melody Gardot ecoa divas negras como Nina Simone e Billie Holiday

por Tárik de Souza — publicado 19/02/2016 18h23, última modificação 21/02/2016 08h29
Nos temas e na musicalidade, a loura trafega com espantosa naturalidade, por temas autorais embebidos em gospel, jazz, soul e blues
Valery Hache/AFP
Melody-Gardot

A jovem cantora e guitarrista, embebida de gospel, jazz, soul e blues

Uma herdeira loura de Nina Simone e Billie Holiday? Sem emular o timbre crestado da negritude, a cantora e guitarrista americana Melody Gardot trafega no quarto disco solo, com espantosa naturalidade, por temas autorais embebidos em gospel, jazz, soul e blues, delta sonoro das divas antecessoras.

Strange Fruit, o feroz libelo de Holiday contra a execução de negros, ecoa no contrito Preacherman, comboiado por guitarras e uivos de sax.

Ela o escreveu em parceria com o baterista da banda, Chuck Staab, a propósito de contumazes assassinatos raciais nos Estados Unidos, de Emmett Till, em 1955, no Mississippi, aos recentes de Trayvon Martin (Sanford, Flórida, 2012) e Michael Brown (Ferguson, Missouri, 2014).

Veja aquele homem/ agitando a mão em desespero/ ele não crê em salvação, Deus, nem nação, vaticina em It Gonna Come, amparada num coro sombrio à bocca chiusa e ostinato de cordas.

Nascida em New Jersey, em 1985, Gardot, aos 19 anos, estudava moda e era apenas uma diletante pianista de casas noturnas quando sua bicicleta foi abalroada por um jipe.

Sofreu fraturas múltiplas nas regiões pélvica e cervical, além de um traumatismo craniano, responsável por vertigem cinética e fotossensibilidade, que a obrigam a usar bengala e óculos escuros. Por prescrição médica, embrenhou-se na musicoterapia e gravou, ainda acamada, o primeiro EP, Some Lessons – The Bedroom Sessions, em 2005.

Currency of man. Melody Gardot. EMI

Foi catapultada ao estrelato após seu primeiro álbum independente, Worrisome Heart, ser reeditado em 2008 pelo jazzístico selo Verve, e o seguinte, My One and Only Thrill, nomeado para três Grammys. 

Em seguida, flertou com a MPB no lusófono The Absence (2012), gravado em longa estadia em Lisboa. Calcado na convivência com a população de rua de Los Angeles, Currency of Man redirecionou sua arte, a partir da capa e encarte expressionistas, em preto e branco.

São indícios da densa imersão da solista em temas dolorosos, de entonação social (Don’t Talk, She Don’t Know) ou pessoal (If I Ever Recall Your Face, Don’t Misunderstand, Once I Was Loved), envoltos numa musicalidade ebuliente. As más notícias chegaram/ é hora de fechar, sentencia a soturna Bad News, engolfada por selvagens sopros mingusianos.