Cultura

Crônica / Matheus Pichonelli

Indicado ao Oscar, Boyhood está longe de ser banal

por Matheus Pichonelli publicado 23/01/2015 06h08, última modificação 11/06/2015 16h49
No filme, levamos quase três horas para perceber não apenas que o tempo passou, mas que ele passou e não nos damos conta
Boyhood

As mudanças do jovem Mason (Ellar Coltrane) ao longo de Boyhood

Ainda dá tempo de falar sobre Boyhood? Se sim, vamos lá. Antes de assistir, a frase que mais ouvi foi: “é uma história comum, só que filmada em doze anos”.

De fato: não há nada na trama que valha uma sinopse a não ser o fato de Richard Linklater ter filmado um garoto de seus cinco, seis anos, até o fim da juventude. Como se fosse pouco.

O filme tem pouco menos de três horas. Nesse intervalo, uma criança curiosa com formigas e outros assuntos ao seu alcance na natureza se transforma num jovem universitário prestes a descobrir um outro lado do mundo. Como todos nós. O esforço para realizar o desafio da filmagem é, em si, um assombro: a cada corte o personagem surge um ano mais velho, mas as transformações são sutis, quase imperceptíveis. Quando vemos, o pequeno Mason está às turras com as mesmas questões – afetivas, familiares, vocacionas – que nos emaranhavam até bem pouco tempo atrás. Levamos quase três horas para perceber não apenas que o tempo passou, mas que ele passou e não nos damos conta.

Quando Linklater começou as filmagens, Ellar Coltrane era uma criança e eu estava prestes a entrar na faculdade. A impressão é que pouco mudou desde então: não fui à guerra, não cruzei fronteiras a pé, não escrevi o livro definitivo da humanidade. Não aprendi sequer a dirigir. Mas basta olhar uma foto das primeiras semanas de faculdade para lidar com o mesmo assombro: a constatação de que o tempo passou. Mais que isso: passou sem ser percebido. Enquanto corria, algo acontecia: o que era importante deixou de ter importância, o que não tinha importância ganhou o palco principal. Casei, me formei, escrevi algumas crônicas, tive um filho – e agora olho para ele como olhei durante três horas para o jovem Mason com a piedade de um refrão antigo: “ah, se soubesse o que eu sei”.

Para quê? A cada corte, e a cada passagem dos anos, topamos, nós, os espectadores, com as dores e delícias dos tempos das descobertas, quando achávamos que o mundo se acabaria (spoiler: não acaba) após uma bronca dos primeiros chefes, os sinais de que não somos especiais, os primeiros suspiros, os primeiros desencontros, as primeiras desesperanças, as primeiras desilusões, os primeiros cansaços, as primeiras lições desnecessárias dos mais velhos. Como nós, Mason cansou de ouvir de velhos bêbados e desregulados que “na sua idade, fazia coisas mais úteis do que (complete a frase)”. A diferença é que, enquanto crescia, as parafernálias tecnológicas que nos levaram anos de adaptação já não eram novidades. Mason é um nativo digital, e não deixa de ser um assombro que as crianças nascidas depois do 11 de Setembro já tenham o nosso tamanho.

Ao escrever para seu filho Sean, na música Beautiful Boy, John Lennon vaticinou: “A vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos”. Nos 12 anos de amadurecimento do jovem Mason (e, de quebra, do jovem Ellar Coltrane), notamos as preocupações dos personagens com planos corriqueiros, quase pueris, mas não notamos a passagem do tempo. Não sabemos exatamente quando o menino se torna um adulto. É quando vai para a faculdade? Quando começa a trabalhar? Quando começa a beber? Quando descobre a sexualidade? Quando começa a rebater os adultos ao seu redor – a começar pelo pai (Ethan Hawke), um jovem envelhecido que se nega a deixar a adolescência, o velho corte de cabelo, o velho quarto dividido com amigos, a velha caranga?

Ao fim do filme, chega a ser compreensível a decepção de quem esperava encontrar na trama os arrebatamentos quase obrigatórios a um concorrente ao Oscar. Mas este arrebatamento do que se vê e sente não era nem de longe a proposta do filme. Com Boyhood, Linklater se fixa como o cineasta da passagem do tempo. Foi assim na trilogia do casal Céline e Jesse, levados à tela a cada dez anos desde 1994. Tanto num caso como no outro, o retorno é sempre um ajuste de contas não com o que se é, mas com o que (não) se foi. Mason, como o casal que ganha ou perde encantamento com a passagem dos anos, é a consagração dessa incompletude. Em sua trajetória, o intervalo do que não é dito ou mostrado é quase um elemento central. Essa passagem dos anos, mostra o diretor, não é repleta de grandes momentos ou virtudes, mas preenchida também com tédio, displicência, lapsos. O esforço do pai em compensar a própria ausência com uma conversa forçada dentro do carro é exemplo disso:

-O que você tem feito de bom?

-Nada demais.

Entre uma tentativa e outra a vida acontece, a exemplo do casal da trilogia, ele se movimenta o tempo todo enquanto tenta organizar ideias próprias que não rendem uma tese, mas sustentam um diálogo à espera do amanhecer, do fim da tarde ou da meia-noite. Como quando, em uma cena com a namorada, ele relaciona a hiperconexão da vida contemporânea com os pesadelos da uma distopia científica: a transformação de seres humanos em robôs. Ou quando a nova amiga mira para o infinito, sem fitar o personagem, e arrisca:

-Sabe quando dizem ‘aproveite o momento’? Eu não sei, mas acho que é o contrário. É como se o momento nos aproveitasse.

Não por acaso a cena (desculpa, mas vou contar) é a versão atualizada de uma passagem conhecida de Antes do Amanhecer, quando os personagens de Hawke e Julie Delpy se procuram e se distanciam com os olhos em uma loja de vinil. Aquele encontro começava a virar passado no momento em que seus personagens faziam esforço para segurar a respiração. Lá se vão mais de 30 anos, mas ainda é possível ouvir Kath Bloom cantando para o vento: “Eu não tenho pressa. Você não tem que correr dessa vez...”