Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Boulez sem Boulez

Cultura

Visões Musicais

Boulez sem Boulez

por Alexandre Freitas — publicado 12/11/2010 11h17, última modificação 12/11/2010 11h19
Na pintura, o expressionismo tem uma dimensão narrativa que a arte dos sons parece querer se desvencilhar. O expressionismo na música habita sobretudo a vontade se tornar pintura

Fui ver Pierre Boulez na Salle Pleyel, em Paris, na última sexta. Algo inesperado acontece. Por problemas de saúde, um dos maiores nomes da música contemporânea, o maestro e compositor de 85 anos cancela sua participação na turnê de cinco concertos na Alemanha, em Luxemburgo e na França. Um outro maestro o substituirá.

Mais uma vez peço licença ao leitor para tecer alguns comentários sobre um concerto em terras longínquas e exóticas (por que não dizer?).

Regidos por Peter Eötvös, os músicos da noite integravam a Ensemble Modern Orquestra, a primeira orquestra do mundo a se consagrar inteiramente ao repertório dos séculos XX e XXI.

Algo saltou-me aos olhos logo nos primeiros sons. Era incrível a maneira engajada com a qual cada músico vestia cada nota, cada som, cada gesto. Nos momentos em que as obras pediam golpes de arcos, acentos ásperos ou qualquer tipo de ataque mais violento, sentia-se o empenho geral, quase catártico. Só vi e senti tamanha aplicação em algumas orquestras de música barroca ou antiga. Não sei se o leitor concorda, mas nos grupos sinfônicos convencionais, muito frequentemente, é possivel perceber um clima de funcionalismo, de cumprimento de dever ou obrigação. Muitas vezes tenho que abstrair-me dessa incômoda sensaçåo para melhor fruir o concerto. Na última sexta, porém, não foi preciso tal esforço.

Ouvi três criações mundiais, Postludium de Bruno Mantovani (minha preferida), Ditirambos de Jens Joneleit e Contrabande de Johanes Maria Staud, além das Cinco Peças op.16 de Schoenberg (1909) e as Variações para Orquestra op.31 (1926). O que unia esse repertório, segundo o programa distribuído, era o expressionismo, denominação no mínimo opaca, quando se trata de música. Na pintura, o expressionismo tem uma dimensão narrativa que a arte dos sons, apesar de sua submissão ao tempo, parece querer se desvencilhar. Acho que o expressionismo na música habita sobretudo a vontade dela se tornar pintura, se afirmar pelo timbre e se inscrever no espaço. No timbre, como no caso de Schoenberg e sua utilização da técnica chamada Klangfabernmelodie (melodia das cores do som), e no espaço, quando Mantovani alterna, entre os dois extremos da orquestra, efeitos de sopros sem notas precisas. Aí deve morar o expressionismo musical, imagino.

Na diversidade das técnicas composicionais de cada criador contemporâneo e no diálogo com as obras de Schoenberg emergia a unidade de uma música que queria ultrapassar seus limites, deixar de ser narração e se tornar forma, massa de timbres e cores.

Pierre Boulez estava onipresente em algo que os compositores e os instrumentistas compartilhavam com o público: o desejo de ver-se materializar uma nova sensibilidade musical. E, junto a esse desejo, uma agústia. Os anos se passam, o velho Boulez vai saindo de cena e esse novo "sensível" musical ainda parece um esboço, uma realidade tímida e solitária.