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Blog do Marconi

por Vitor Knijnik — publicado 21/05/2013 18h27
Nem a internet o derruba. Enquanto tevês, jornais e revistas impressos sofrem para manter telespectadores e leitores, o rádio segue próspero em ouvintes

Já viram como meu invento é forte? Nem a internet o derruba. Enquanto tevês, jornais e revistas impressos sofrem para manter telespectadores e leitores, o rádio segue próspero em ouvintes. E por mais que gurus digitais insistam que seus dias estão contados, ano a ano, o número de venda de aparelhos de rádio não para de aumentar.

Sou obrigado a dividir os méritos dessa história de sucesso ininterrupto com a indústria automobilística. Sem ela, o quadro seria diferente. Aliás, para ser honesto, merecem créditos ainda os governantes de todas as esferas: municipais, estaduais e federal. Cada vez que uma obra do metrô é atrasada, cada vez que a redução do IPI é prorrogada, quando uma nova ponte, um túnel, um viaduto são construídos, mais rádios chegam ao mercado.

O curioso é que o principal propósito do primeiro sistema prático de transmissão de ondas eletromagnéticas sem fios era encurtar distâncias. Hoje, passados quase 120 anos, o rádio é usado para suportar distâncias. E muitas vezes curtas. O sujeito fica parado horas no trânsito, para andar poucos quilômetros. E como ele suporta o tédio da clausura e imobilidade? Escutando notícias sobre congestionamentos.

Há inclusive várias estações dedicadas exclusivamente a dar informações sobre o trânsito. O motorista ouvinte dessas rádios, por certo, sente-se confortado em saber que, em outras partes da cidade, tem alguém em situação pior do que ele. De outro modo, mexeria no dial para escutar missas, notícias e músicas.

Uma pequena digressão: aparentemente, é preciso uma grande estrutura para montar uma rádio dedicada a cobrir a não movimentação de estradas, ruas e avenidas. Conte aí viaturas, repórteres de rua e, ao menos, um helicóptero, fora todo o equipamento técnico. Mas eu suspeito que essas rádios não utilizem nada disso. Me parece que todos os áudios são gravados, de uma só vez e não na rua, e sim em um estúdio. Depois, as gravações vão para a mesa de edição, onde recebem os devidos efeitos de buzinas, motores e hélices. Aí são colocadas no ar como se fossem intervenções ao vivo. Um acidente grave envolvendo um carro e uma moto está deixando o trânsito lento na avenida X. Faz péssimo caminho quem vai pela rodovia Y. Se mudar a entonação, ninguém nota que, ontem e anteontem, escutou a mesmíssima informação.

Para concluir, quero dizer que, infelizmente, o reinado do rádio está próximo do fim. E vai acabar justamente pelas mãos de quem o prolongou. Quando as ruas estiverem absolutamente entupidas e os automóveis atingirem a imobilidade total, os órgãos reguladores e fiscalizadores de trânsito certamente liberarão aos motoristas o uso de smartphones, tablets e tevês. E você sabe, ninguém resiste ao encanto de uma tela luminosa. O rádio só segue vivo do jeito que o conhecemos porque, para dirigir, ainda somos obrigados a olhar pra frente.

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