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Cultura

Crônica do Villas

Bisbilhotices

por Alberto Villas publicado 04/04/2013 15h31, última modificação 04/04/2013 15h31
Alberto Villas relata as curiosas conversas alheias ouvidas nas ruas, shopping e aeroporto
bisbliotando

É dando uma espiadela aqui, uma escutadinha ali que vou construindo meus textos, minhas crônicas, meus livros. Foto: Galeria de Alberto../Flickr

Confesso que sou bisbilhoteiro e não é de hoje. É dando uma espiadela aqui, uma escutadinha  ali que vou construindo meus textos, minhas crônicas, meus livros. Penso nisso todos os dias durante minha caminhada matinal pelas ruas da Vila Romana. Outro dia mesmo, na esquina da Rua Faustolo com Tibério, vi um casal conversando, cada um com o seu cachorro no laço. Passando rapidamente por eles, só deu pra escutar uma frase:

- O meu tem cara de filósofo!

Dei uma olhadinha rápida e não é que o cachorro dele tinha mesmo uma cara de filósofo, uma coisa assim meio Foucault meio Baudrillard?

Na Rua Fábia alcancei duas senhoras que todos os dias vejo caminhando por ali. Ao ultrapassá-las escutei:

- Mesmo quando eu quero as batatinhas mais coradas eu asso.

Deram dois passos e a outra disse:

- Bife à milanesa nunca mais fiz.

Mas não é só nas ruas da Vila Romana que ando escutando e colecionando frases. Na sala de embarque do aeroporto Santos Dumont sentei-me ao lado de uma jovem que lia o livro No Buraco, do Tony Bellotto.  Aflita, ela devorava um trecho, lia outro e corria lá pro final do livro.

Pensei com os meus botões: Como pode uma pessoa estar ainda na página 45, 46 de um livro e ficar bisbilhotando qual é o final da história? Será que ao ler as últimas palavras do livro – “o pesadelo ainda não chegou ao fim” – ela seria capaz de decifrar o enigma do buraco?

Na mesma sala de espera, ao meu lado esquerdo, estava uma executiva organizando recibos de cartões de crédito. Ela ia colocando um a um em ordem. Não sei se por data de compra, valor ou loja. A maioria era da Zara.

Na porta do Morumbi Shopping, fui caminhando atrás de um senhor muito agitado falando ao celular. Falando alto e gesticulando muito, ele insistia que o lote de telhas tinha de ser entregue ao cliente naquela quarta-feira mesmo, impreterivelmente! Continuei caminhando e pensando como pode alguém se preocupar e ficar tão nervoso com telhas em plena quarta-feira?

Outro dia, beliscando tapas no simpático Marcelino Pan Y Vino, um casal ao meu lado conversava animado, ela uma morena meio índia e ele um nipônico. Parecia início de namoro. Tentei não escutar a conversa, mas não teve jeito.

- Por isso me sinto um privilegiado de estar aqui agora com você!

Num ônibus que me levou da Lapa a Barra Funda, isso há algumas semanas, um jovem de pé ao meu lado ouvia um iPod a toda altura. Mesmo com o fone enfiado no ouvido, dava para ouvir, praticamente sentir a música. Meu ouvido atento concentrou-se naquele iPod que tocava Sympathy for the Devil. Debaixo de um calor de 40 graus fui pensando por que diabos aquele jovem estava escutando Rolling Stones naquela tarde de domingo. Foi só isso que captei naquele coletivo.

Confesso que não resisti a uma bisbilhotice ao chegar da ponte-aérea no aeroporto de Congonhas num dia de chuva. O avião custou a taxiar e quando parou ainda demorou uns quinze minutos ali esperando não sei o quê. Vi pela fresta das poltronas 5D e 5E, um quarentão já meio grisalho usando um terno impecável, escrevendo uma mensagem no celular: “Ruth, não se esqueça de colocar o ventilador no quarto do Rafael na velocidade 2, virado pra parede”.

Se não tivesse bisbilhotado tanto nos últimos dias, que crônica escreveria essa semana para a CartaCapital?