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Cultura

Crônica do Villas

Bicho-Preguiça

por Alberto Villas publicado 01/05/2014 12h15
O homem tem trabalhado cada vez mais. Mas, para outras coisas, ficamos tipo bicho-preguiça. Quer ver só?

A primeira vez que vi um bicho-preguiça foi na Floresta Amazônica. Ele estava no colo de uma indiazinha, meio abraçado a sua barriga nua, sem arranhar. Ele tinha mesmo um ar preguiçoso, de quem não está nem ai. Com um olho meio aberto, o outro meio fechado, me encarou assim meio blasé.

Gosto do bicho-preguiça. De tempos em tempos, a gente tem notícia de que um apareceu numa árvore e que foi preciso um batalhão do Corpo de Bombeiros pra tirá-lo lá de cima. Acho engraçado o bicho-preguiça ter esse nome. Na França ele chama  preguiçoso.

Com razão. O bicho tem um ar de quem não quer nada com a dureza. Quer sombra, água fresca e brotos de planta. Fiquei sabendo outro dia que ele costuma dormir 14 horas por dia, e é assim que ele vai levando a vida, deixando a vida levar, devagar, devagarinho.

Sei lá, fiquei pensando esses dias como a gente também anda preguiçoso. Não que durmamos 14 horas por dia ou que vivamos de sombra, água fresca e brotos de plantas. Pelo contrário, o homem dá um duro danado e tem trabalhado cada vez mais. Mas, para outras coisas, ficamos tipo bicho-preguiça. Quer ver só?

Se você entra numa concessionária pra comprar um carro e o vendedor diz que aquele modelo não tem vidro elétrico, nada feito. Como viver virando e desvirando aquela manivela pra abrir ou fechar os vidros do carro?

E o controle remoto? Nem existe mais televisão sem controle remoto. Se fabricarem, não vendem uma sequer. Só de pensar que tem de levantar cada vez pra mudar de canal ou aumentar o som, a gente desiste da compra.

Já percebeu, num shopping, quantas pessoas sobem pela escada? Uma em cada mil. Novecentos e noventa e nove vão pela escada rolante e se ela estiver parada, preferem sair andando à procura de uma que esteja funcionando a subir degrau por degrau.

Dá uma olhada só no aeroporto ou na rodoviária, quantas pessoas estão carregando uma mala, daquelas malas pesadas que todo mundo carregava. Ninguém! Está todo mundo empurrando sua mala de rodinhas. Antes eram duas, agora são quatro pra cada mala.

E assim vamos ficando preguiçosos. É o manobrista que estaciona o seu carro. É o garoto que coloca suas compras de supermercado na sacola, é o lava-jato que lava o seu automóvel, é o porteiro que abre o portão do seu prédio para você entrar, é o elevador que te leva pro primeiro andar.

Ninguém mais faz força engraxando sapatos, passando escovão no chão ou fazendo força pra estacionar o carro porque o volante tem de ser hidráulico.

Tenho amigas que só compram abacaxi descascado no supermercado. Pra que fazer força pra descascar um abacaxi? E não é só o abacaxi. Compram também o melão em pedaços, a melancia cortada e a mexerica em gomos.

Uma outra amiga só compra bolo pronto, desses Pullman, só pra não ficar lá fazendo força, transformando a clara em neve.

Outro dia um amigo meu, cansado de tanto sedentarismo, resolveu comprar um livro chamado  Walkscapes – o caminhar como prática estética, do Francesco Careri. Comprou pela Internet porque ir caminhando até a livraria, nem pensar.

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