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Cultura

Calçada da memória

Bicho de cinema

por Rosane Pavam publicado 26/03/2011 07h28, última modificação 26/03/2011 14h28
Elizabeth Taylor, morta aos 79 anos, submetia completamente o público à sua atuação. Ela se movia intuitivamente entre a beleza, o glamour e a fúria, embora não fosse atriz de muita técnica. Por Rosane Pavam

Elizabeth Rosemond Taylor, morta dia 23 em Los Angeles, aos 79 anos, de falência cardíaca, era um bicho de cinema. Isto porque submetia completamente o público à sua atuação. Ela se movia intuitivamente entre a beleza, o glamour e a fúria, embora não fosse atriz de muita técnica. Naquele momento de declínio do star system, era uma das únicas a manejar à vontade, e misteriosamente, as emoções dos compradores de bilhetes.

Fora um bicho de cinema porque, entre outras razões, habituara-se também a tirar força do convívio com os animais. Primeiro, posara ao lado de Lassie, depois, com repercussão inesperada, encenara a jóquei travestida de menino de A Mocidade É Assim Mesmo. Sua mãe convencera a produção de que, frágil para o papel, a garota de 12 anos teria o cavalo em suas mãos no filme. A atriz, contudo, caiu no set,
e a queda lhe rendeu problemas de coluna por toda a vida.

Estranha colecionadora de diamantes, até risível em sua opulência, ela também compreendia o poder transformador da arte cinematográfica. Jamais recusou os papéis difíceis e ganhou dois Oscar. Na vida, os oito maridos, o escândalo de ter roubado o marido da amiga Debbie Reynolds, Eddie Fisher, substituído sem dó por um magnético Richard Burton, tudo se somou naturalmente à concepção de sua figura artística e pública. “O sucesso é como um desodorante que apaga os odores do passado”, disse certa vez.

Quem, além dela, daria um pito em Ronald Reagan por seu desprezo à causa da Aids? Ou recusaria o convite
à participação na cerimônia de entrega do Oscar em protesto à guerra promovida por George W. Bush? Ou defenderia o amigo Michael Jackson de condenações por um crime por demais óbvio aos olhos do público?

Liz Taylor, o animal de olhos cor violeta, e ninguém mais.