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Cultura

Festival Internacional de Cinema de Berlim

Brasil abre mostra na Berlinale com "Sangue Azul"

por Deutsche Welle publicado 06/02/2015 06h06, última modificação 06/02/2015 06h48
Uma das principais seções do festival, a Panorama inicia programação com o novo filme do pernambucano Lírio Ferreira
Divulgação
'Sangue Azul'

Estrelado por Daniel de Oliveira, Sangue Azul, do pernambucano Lírio Ferreira, foi escolhido para abrir a Panorama

Há algo de surreal na premissa de Sangue Azul, novo filme do pernambucano Lírio Ferreira, que abriu na quinta-feira 5/2 a mostra Panorama, a segunda de maior visibilidade dentro do Festival de Berlim. O filme gira em torno de um circo que visita Fernando de Noronha.

Logo em suas primeiras imagens em preto e branco, fica claro que aquele mundo de magia e fantasia esconde segredos. A passagem da trupe pelo remoto paraíso insular pode abrir portas para sentimentos sombrios que foram enterrados no passado.

"A ideia síntese do filme era de uma ilha dentro de uma ilha: uma estática, e o circo sendo uma ilha itinerante", explica Ferreira à DW Brasil.

A princípio poderia ser uma ilha qualquer, mas isso mudou durante a pesquisa do roteiro, quando o diretor visitou Fernando de Noronha.

"Foi a primeira ilha que me veio à cabeça. Além de ser um lugar remoto, Noronha também é uma ilha vulcânica. Aquele paraíso é o topo de um vulcão e isso tem muita conexão com o filme. A relação dos personagens é quase uma panela de pressão", diz.

O preto e branco das imagens funciona como prólogo. Assim que o homem-bala Zolah (Daniel de Oliveira) é arremessado do canhão, o paraíso se torna colorido. O animado público da ilha recebe de volta seu filho pródigo, que deixou a família e percorreu os quatro cantos do mundo com o circo.

"Estamos passando um momento de transição muito forte no cinema, onde nem a película existe mais. Não sabemos como vai ser o cinema em cinco anos. Queria falar desse momento, mas com uma arte que não fosse o cinema. Uma arte que sempre esteve perto de morrer, mas ressurge. Essa arte é o circo", revela diretor.

Assim o microcosmo do circo entra primeiro em uma combustão de alegria com esse paraíso remoto. Mas seus pontos de interseção, personificado em Zolah e Kaleb (Paulo César Peréio), ilusionista e chefe do circo que levou o jovem da ilha há quase 20 anos, vão mudar a vida daquela comunidade.

"Há uma característica muito forte nesses dois universos: as pessoas se relacionam dentro da própria família, mas por motivos opostos. A ilha não se move, apesar dos turistas, a comunidade é muito pequena. No circo, eles se casam porque se movimentam o tempo todo", diz Ferreira.

Esses dois universos vão criando gradativos pontos de conflito. O estranhamento do encontro de Zolah com sua família: uma mãe, que parece não saber o que fazer com um amor quase claustrofóbico, e Raquel, uma jovem recém-casada pela qual ele tem forte afeição.

Os forasteiros e sua sensualidade vão se entrosando de maneira carnal com os corpos bronzeados da ilha. O remoto e o universal, o estático e o itinerante começam a brincar e a dialogar, mas quando os segredos vão chegando à superfície e os fantasmas do passado começam a assombrar o presente.

"Como esses universos têm muita relação de sangue, o incesto foi a maneira de amarrar esses dois mundos. Assim como fui mostrando Noronha como um lugar paradisíaco de maneira homeopática, fiz a mesma coisa com a relação de Zolah e Raquel", revela o diretor.

Ao falar de cinema através do circo, Ferreira também pode se colocar na pele de seus personagens, fazendo conexões entre a magia do espetáculo circense e a natureza quase mágica do arquipélago cercado por um cristalino "sangue azul".

"O filme foi uma grande metáfora. Nós éramos o circo, uma equipe de cinema que aparece do nada e convive dois meses com aquelas pessoas. Era um filme dentro do filme. Não queríamos fazer macumba para gringo, mas mostrar a verdade daquele lugar e daquelas pessoas", afirma Ferreira.

  • Autoria Marco Sanchez

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