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Carta de Portugal

Beleza de salão

por Eduarda Freitas — publicado 14/10/2010 16h41, última modificação 14/10/2010 17h15
Na sétima e última crônica da série Cuba a colunista Eduarda Freitas descreve a tarde em um salão de cabeleireiro em Havana

Na sétima e última crônica da série Cuba, nossa colunista Eduarda Freitas nos descreve a tarde em um salão de cabeleireiro em Havana

 Os trovões rasgam o céu. São quatro da tarde. Num movimentado salão de cabeleireiro de Havana, os secadores estão ligados. Pintam-se unhas, aplicam-se desenhos e flores numa complexidade de manicura muito pouco prática. Massajam-se pés enfiados em bacias de água. O que está na moda, neste salão de Havana, é esticar o cabelo. Transformar o doce volume de cabelos frisados em cabelos escorridos, lisos. Na sala ao lado, António faz depilações. Meia-perna e axilas, 10 CUCs. Com cera de mel. E conta a vida. Esquece-se das pernas da mulher que o ouve, entregues à cera quente, enquanto fala, enquanto engendra formas de sair, preso a um talvez. Talvez casar com uma turista, talvez ir para a Europa, talvez elas gostem de homens altos. Como ele. Na sala onde se fazem os penteados, as mulheres têm meias de vidro enfiadas na cabeça. Estão debaixo dos secadores. Parece que foram engolidas por chapéus gigantes, muito quentes. A água escorre pelo corpo. Os olhos embaciam-se de suor e impaciência. Algumas têm nas mãos umas quantas revistas Hola de datas muito para trás, de ditos e desditos escritos em páginas de um cor-de-rosa já velho, desbotado. Os raios sacodem os enormes secadores de cabelo, fixos ao chão. Da porta do velho cabeleireiro, vê-se a chuva a cair. Havana parece ter mergulhado no mar. Escorregue-se de água, de gente, de carros. O céu está muito bravo. Mais logo, sem pressa, a tempestade vai passar. Dentro do calor dos secadores, acredita-se. Espera-se. Já se sabe, é sempre assim. Pelo olhar das mulheres, não se diz, mas percebe-se, que os esticados cabelos não vão resistir à humidade do ar. Quase de certeza que vão assumir a rebelde ondulação de sempre. E talvez mesmo o verniz das unhas fique estalado. É normal…com tanta chuva! Mas a tempestade vai passar. Passa sempre. E no Aeroporto Internacional Jose Marti, a fila de turistas que cresce para o voo da noite, com destino à Europa, não precisa de se preocupar. Há sempre um cubano que o garante. Que sorri.