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Bastidores de uma guerra

por Camila Alam — publicado 29/07/2010 17h09, última modificação 29/07/2010 17h09
A viagem do fotojornalista francês Didier Lefèvre na missão dos Médicos Sem Froteiras em terras afegãs

Enquando a União Soviética invadia o Afeganistão na década de 1980, o fotojornalista francês Didier Lefèvre (1957-2007) foi convidado a companhar uma missão dos Médicos Sem Froteiras em terras afegãs. Nesta viagem, que durou cerca de três meses, foram usados cento e trinta rolos de filme, que resultaram em mais de quatro mil fotografias. Parte delas pode ser vista na série de livros O Fotógrafo – Uma História no Afeganistão (Ed. Conrad), cujo terceiro volume chega agora às livrarias brasileiras.
Estes finos livros de capa dura foram feitos à seis mãos e são belíssimo resultado de uma parceria entre o fotógrafo e dois amigos, Emmanuel Guibert e Fédéric Lemercier. Em uma mistura de história em quadrinhos com fotografia, Guibert é responsável pelos desenhos e Lemercier pela diagramação.

Com base nas histórias contadas por Lefèvre, montaram um diário de viagem, em que as fotografias em preto e branco se misturam com desenhos e vão narrando esta incrível jornada desde sua concepção, ainda na França, e regresso.

Nos primeiros dois volumes, sabemos como o fotógrafo topou embarcar na missão e quais foram suas primeiras impressões. Registrou, por exemplo, cirurgias complexas feitas em acampamentos precários, crianças e adultos feridos por bombardeios na região de fronteira entre Afeganistão e Paquistão. Registros que impressionam pela crueldade e, ainda sim, pela beleza. Lefrève fotografa e aprende costumes, mas mesmo quando já habituado, não consegue perder o nervosismo ao ver adolescentes brincando com metralhadoras.

Ao final do segundo volume, o francês decide voltar pra casa e, para ganhar tempo, opta por fazer o caminho do volta ao Paquistão sozinho. Para isso, teria que atravessar ilegalmente a fronteira a pé, dormir sob neve, tomar cuidado para não pisar em minas. Queria, além de tudo, fotografar. Mas precisaria, em primeiro lugar, sobreviver.

Este recém lançado terceiro volume é a parte mais impressionante da viagem. É quando se vê de fato sozinho, à mercê de aproveitadores que extorquem dinheiro em troca de informações ou à sorte de alguns poucos que lhe oferecem ajuda. O mais interessante desta linguagem que mistura quadrinhos e fotografia é que por meio dela, podemos sentir o estado de espirito do viajante. Quanto mais desgastado e deprimido, menor vontade de fotografar ele tinha.

Somos levados pela viagem até a chegada na França, quando ele vai ao encontro da mãe, em novembro de 1986. Uma sequência de imagens dela passeando com sua cadela na praia de Blonville fecham esta aventura de maneira tranquila e bucólica, que destoam da tensão afegã. “Foi sensacional, mãe, e não me aconteceu nada de ruim”, disse o fotógrafo, então com quase 30 anos. Ela demoraria quase vinte anos para saber de fato, pelas páginas destes livros, os detalhes da viagem do filho.