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Cultura

Cariocas Quase Sempre

Barata total

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 16/02/2011 09h00, última modificação 16/02/2011 10h15
Um desprezo uníssono pelo inseto move os acanhados leitores a exigir o spray

Um desprezo uníssono pelo inseto move os acanhados leitores a exigir o spray
Bastou falar em barata, leitores desta coluna, que sempre pareceram acanhados, puseram as anteninhas de fora. Homens ou mulheres, todos odeiam as cascudas, em especial as voadoras.
Ante o desprezo uníssono pelo inseto, e da troca de experiências, um dos baratos da internet, ninguém manifestou um mínimo de simpatia ou lembrou-se de personagens doces e engraçadinhos como a “Baratinha Ia-Iá”, “Dona Baratinha”, o chachachá “La Cucaracha” e outros que passaram por nossa célere infância e adolescência.
Tampouco foi lembrada a baratona atormentada de Kafka, em Metamorfose, ou da superação da personagem de Clarice Lispector ao deglutir, isso mesmo, uma barata no clímax de A Paixão Segundo G.H.
Pau nela, vassourada, sapatada, sprays, gritos de aterrorizar vizinhos e botar à prova as multifunções dos esforçados porteiros e zeladores de prédios. Esses bravos abandonam seus postos para acudir moradores ante a presença de uma Leucophaea maderae em suas casas. Onde, onde, onde? – indagam os caçadores urbanos.
No Facebook, também pipocou a solidariedade de amigos resumindo seus causos e enfrentamentos. Poucos se disseram capazes de enfrentá-la. No mais corajoso dos posts, uma amiga psicanalista confessou que “tudo bem”, desde que não houvesse “a necessidade de contato físico”.
Uma sobrinha disse conhecer um boteco no centro carioca famoso por fazer seus frequentadores passarem por provas de coragem. Já viu freguês no bar, cuja alcunha é Barata Voa com a dita-cuja passeando sobre o penteado da vítima e outro com uma adentrando gola abaixo da camisa.
A cunhada confessou já ter passado uma noite na portaria do prédio, cedendo a vez ao inseto que derrotara a acuidade do vigia. O mesmo se deu com uma velha amiga salva já ao fim de uma noite insone pela pata de “seu herói”, o cãozinho Mike, que afinal foi dormir.
História  horrível: o leitor Fábio, de São Paulo, teve de enfrentar uma de balouçantes antenas surgida da entrada do ar condicionado de seu carro, enquanto dirigia pela Avenida Rebouças e tentava conter o desespero da ex-mulher, cara a cara com a invasora. Foi feliz em quase todos os aspectos. Sem poder largar o volante, tirou o sapato e num golpe certeiro liquidou o bicho. Mas o evento coincidiu com a fracassada tentativa de reatar a relação.
Por causa da experiência de Fábio, a leitora Lenir Vicente alertou que “as baratas estarão entre nós até o planeta explodir por culpa da raça pensadora” e recomenda sapatadas inclementes também em aranhas caseiras. Já a que se assina Yonne fez uma longa digressão existencial e comparou a coragem e “virilidade” do motorista e matador exímio às suas atitudes em relação à vida. Kafka deliraria.
Paulo Costa escreveu dizendo que “nada é mais terrível do que uma voadora”. Colecionadora de muitas histórias do gênero, Anaísa afirmou que a barata é “o terror de sua vida”. Num post curto e grosso, Jô Freitas lança uma pergunta: “Por que, se mortas com inseticida, as danadas ficam de perninhas para o ar?” Não somos entomólogos. Mas deve ser porque, ao morrer por asfixia, deitam-se desesperadas à procura de ar...
Muito punk
De péssimo gosto um dos integrantes do Pânico na TV preso numa bolha de plástico infestada por baratas que cobriam seu rosto e corpo. As cenas recorrentes de imolação daquele que atende por Bola são de um humor bizarro, inspirado no americano do gênero Punke’d. Zap neles.