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Babel literária à moda indiana

por Willian Vieira — publicado 21/04/2011 12h52, última modificação 29/04/2011 12h47
Amitav Ghosh retrata a Índia do ópio em drama de léxico desafiador

Amitav Ghosh retrata a Índia do ópio em drama de léxico desafiador

Foi no mês de abril que Amitav Ghosh, um dos mais estabelecidos escritores indianos, parou para refletir sobre uma carta com comentários sobre Mar de Papoulas (Alfaguara Brasil, 536 págs., R$ 59,90). Era de um compatriota que, pasmo com a verossimilhança histórica da trama, fazia uma estranha reverência. “Fiquei muito impressionado com seu livro, porque fui gerente na fábrica de ópio de Ghazipur entre 1963 e 1965 e depois assistente do departamento de Narcóticos”,dizia a melancólica missiva. “Sua história sobre a fábrica de ópio é tão realista que me trouxe de volta os dias que passei lá.” É esse mergulho sinestésico o que esperao leitor do mais ambicioso livro de Ghosh.

Quando a protagonista Deeti, mulher de baixa casta e lavradora de papoulas na mesma Ghazipur, cruza os portões da fábrica onde o marido trabalha, justamente para resgatá-lo após uma síncope causada pelo vício na droga que ele mesmo produz, sua impressão é a de cruzar os portões de um lugar aterrorizante, porém, mágico. “A extensão do depósito era tal que a porta do extremo oposto parecia um furinho de alfinete iluminado”, descreve Ghosh, adicionando meninos seminus com “pilhas impossivelmente altas de folhas de papoulas”, homens sobre balanças gigantes e ingleses de cartola contando dinheiro. Todos são envoltos numa névoa que arde os olhos e dão vida a um momento histórico antes perdido nos livros de história.

E essa é só a largada da saga que alimentará dois outros livros de Ghosh sobre o Ibis, um navio negreiro adaptado para transportar ópio e coolies, semiescravos indianos amealhados como mão de obra nas colônias canavieiras. No auge do tráfico internacional exercido pela Companhia Britânica das Índias Orientais, no início do século XIX, a Índia era o centro produtor da droga. Mas era para a China que os ingleses a transportavam, de navio, tamanho o sucesso de sua estratégia de implantar o vício entre os chineses. São essas escravidões trazidas pela droga e que levaram às guerras do ópio o pano de fundo da odisséia em que Deeti nos mergulha.

*Confira este conteúdo na íntegra da edição 644, já nas bancas.